Cansaço.

dentre todas as coisas - tão difíceis - desse mundo,
a pior é não poder parar o pensar
nem mesmo um segundo
é ver estampado no celular: faltam cinco horas para você levantar!
agora já são quatro, o tempo é maratonista
e você não tem conseguido nem alcançar o motorista
que insiste em partir com o ônibus 
quando você está chegando no ponto
terrivelmente atrasada
porque está cansada
e não consegue mais lembrar seus compromissos
e agora cogita comprar uma agenda
esse acessório que você acha brega, capenga
porque é coisa de velho
e você ainda tem 20
e você já tem 20 - quase 21
sua mãe, 52
e um coração cansado
enquanto você estuda como louca
ela lava pratos
e isso te mata
talvez não conseguir retribuir
todo o trabalho dela 
com algo mais que amor
nunca ouví-la dizer ao doutor
"minha filha é como o senhor"
partir como partiu o seu pai
dizer até logo e não voltar
jamais
você é péssima com poemas
e precisa estudar
são duas provas, três trabalhos a apresentar
mas antes de dormir, sempre pensa um bocado
quando a vida pagará as horas
que emprestei aos certificados?



Railma Medeiros






Lar.


Fonte: http://weheartit.com/mariananarumi


Andei por ruas bem desertas, em noites bem escuras, me expunha ao perigo porque antes de você eu não tinha medo de não voltar para casa. Às vezes tudo o que eu queria era justamente não conseguir voltar para casa. Hoje eu apresso o passo, olho pros lados, quero chegar sã para a minha família e te mandar uma mensagem dizendo que "cheguei, tá tudo bem". Já tentei me sabotar e fiz por onde as coisas darem errado, aí você apareceu e me ajudou a seguir em frente, a comer melhor, a me exercitar, a estudar, a voltar a sonhar. Encontrei amor no vão entre o teu peito e os teus braços, fiz de lá a minha casa: levei meu livro favorito e até umas roupas de dormir. Você me mostrou o quanto eu era digna de um romance e que merecia ser amada, eu só precisava de um tempo para me acostumar a sentir. Confesso que me assustei, corri para bem longe, pensei que nunca mais voltaria... E voltei. Veja bem, quando se leva para junto de alguém até as roupas de dormir, é difícil conseguir ir. Não é fácil embarcar na montanha russa do sentir, mas viver nada mais é que aprender a dosar o Dramin, descobrir que compaixão pode ser bom e ruim - às vezes choro, às vezes festim. Me deparei com um cômodo abstrato onde construímos lar: sorrisos, choros, problemas, tesão, faxina, arroz e feijão, planos para o futuro, contas a pagar. É lá mesmo que eu quero ficar.


Railma Medeiros

Nós.

Fonte: http://weheartit.com/mariananarumi


Acabei de acordar, despertei assustada de um sonho em que te perdia: eu cometia um erro imperdoável e você ia embora da minha vida. Acordei e tudo não passou de  uma ilusão ruim, fruto da minha imaginação perturbada, talvez filha do meu medo de ter que me despedir. Apesar dos pesares, dos nossos erros, de todos os medos que desenvolvemos no decorrer dos tempos difíceis, apesar das quedas... Somos nós. Não conseguimos deixar de ser em momento nenhum. Nem levados pela incerteza, pela instantânea raiva, pela distância ou pela opinião dos outros. Somos nós, um pelo outro estamos aqui, até quando estamos feridos e proferimos palavras igualmente doloridas. Somos nós porque, apesar dos destroços, um pelo outro, conseguimos sorrir; porque das nossas piadas só existimos nós para enxergar a graça. Seja na glória da vitória ou massacrados pela derrota, sonolentos ou insones, no prazer da cama e nas conversas que insisto em querer ter antes de dormir... Há amor. E quando um pesadelo me assombra eu ainda penso na gente numa viagem à praia para me acalmar.

Nessa montanha russa que é você, eu apertei o cinto e tomei um dramin. Sempre estarei aqui.

"Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem."

Railma Medeiros

Coveiros.





A missa chegava ao fim e os coveiros, aguardando o momento de regar mais um corpo de areia, conversavam baixinho, quase que aos sussurros:

- Uma menina tão bonita, né? 
- Ahh, é... Ele, tão moço, já viúvo...

E as palavras eram ditas com tanta tristeza, tanta condescendência, que aquilo parecia ser, de fato, uma gigantesca tragédia para eles, ao invés de um acontecimento corriqueiro. Quando passei, quase pude ouvir-lhes dizer qualquer murmuro de solidariedade para com a decadente imagem em que me tornara. Eu ainda não havia aceitado que a morte me roubasse o que de mais precioso eu tinha e, de dor, remorso, desespero, angústia e todos os piores sentimentos que podem ser provados, tentei me jogar naquele buraco. Nós prometemos morrer juntos, não prometemos? 

ME DEIXEM IR! ME DEIXEM! ME DEIXEM IR!

Eu me pus aos berros, tentando me livrar dos braços que me continham à beira daquele abismo de dois metros a partir do chão, mas que parecia ser mais profundo que o poço que abrigava a minha alma. Puxei uma das cordas (usadas para lançar a mulher que amo na escuridão de microrganismos terrestres) das mãos de um coveiro e tentei envolvê-la em meu pescoço. De tão covarde, sem concluir o ato, eu desmaiei. Antes de apagar, entretanto, pude ouvir os gemidos dos coveiros:

- Ai, meu Deus! - Disseram ambos, em uníssono. 

...

São quatro da manhã e, como um despertador programado, o mesmo pesadelo me faz acordar suado e com uma quase arritmia. Às vezes gostaria que tudo fosse verdade. Nada é mais dolorido do que morrer para alguém ainda em vida.


"Coveiros gemem tristes ais
E realejos ancestrais juram que
Eu não devia mais querer você
Os sinos e os clarins rachados
Zombando tão desafinados
Querem,eu sei,mas é pecado
Eu te perder
É tanto,é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto."




Railma Medeiros