Lar.


Fonte: http://weheartit.com/mariananarumi


Andei por ruas bem desertas, em noites bem escuras, me expunha ao perigo porque antes de você eu não tinha medo de não voltar para casa. Às vezes tudo o que eu queria era justamente não conseguir voltar para casa. Hoje eu apresso o passo, olho pros lados, quero chegar sã para a minha família e te mandar uma mensagem dizendo que "cheguei, tá tudo bem". Já tentei me sabotar e fiz por onde as coisas darem errado, aí você apareceu e me ajudou a seguir em frente, a comer melhor, a me exercitar, a estudar, a voltar a sonhar. Encontrei amor no vão entre o teu peito e os teus braços, fiz de lá a minha casa: levei meu livro favorito e até umas roupas de dormir. Você me mostrou o quanto eu era digna de um romance e que merecia ser amada, eu só precisava de um tempo para me acostumar a sentir. Confesso que me assustei, corri para bem longe, pensei que nunca mais voltaria... E voltei. Veja bem, quando se leva para junto de alguém até as roupas de dormir, é difícil conseguir ir. Não é fácil embarcar na montanha russa do sentir, mas viver nada mais é que aprender a dosar o Dramin, descobrir que compaixão pode ser bom e ruim - às vezes choro, às vezes festim. Me deparei com um cômodo abstrato onde construímos lar: sorrisos, choros, problemas, tesão, faxina, arroz e feijão, planos para o futuro, contas a pagar. É lá mesmo que eu quero ficar.


Railma Medeiros

Nós.

Fonte: http://weheartit.com/mariananarumi


Acabei de acordar, despertei assustada de um sonho em que te perdia: eu cometia um erro imperdoável e você ia embora da minha vida. Acordei e tudo não passou de  uma ilusão ruim, fruto da minha imaginação perturbada, talvez filha do meu medo de ter que me despedir. Apesar dos pesares, dos nossos erros, de todos os medos que desenvolvemos no decorrer dos tempos difíceis, apesar das quedas... Somos nós. Não conseguimos deixar de ser em momento nenhum. Nem levados pela incerteza, pela instantânea raiva, pela distância ou pela opinião dos outros. Somos nós, um pelo outro estamos aqui, até quando estamos feridos e proferimos palavras igualmente doloridas. Somos nós porque, apesar dos destroços, um pelo outro, conseguimos sorrir; porque das nossas piadas só existimos nós para enxergar a graça. Seja na glória da vitória ou massacrados pela derrota, sonolentos ou insones, no prazer da cama e nas conversas que insisto em querer ter antes de dormir... Há amor. E quando um pesadelo me assombra eu ainda penso na gente numa viagem à praia para me acalmar.

Nessa montanha russa que é você, eu apertei o cinto e tomei um dramin. Sempre estarei aqui.

"Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem."

Railma Medeiros

Coveiros.





A missa chegava ao fim e os coveiros, aguardando o momento de regar mais um corpo de areia, conversavam baixinho, quase que aos sussurros:

- Uma menina tão bonita, né? 
- Ahh, é... Ele, tão moço, já viúvo...

E as palavras eram ditas com tanta tristeza, tanta condescendência, que aquilo parecia ser, de fato, uma gigantesca tragédia para eles, ao invés de um acontecimento corriqueiro. Quando passei, quase pude ouvir-lhes dizer qualquer murmuro de solidariedade para com a decadente imagem em que me tornara. Eu ainda não havia aceitado que a morte me roubasse o que de mais precioso eu tinha e, de dor, remorso, desespero, angústia e todos os piores sentimentos que podem ser provados, tentei me jogar naquele buraco. Nós prometemos morrer juntos, não prometemos? 

ME DEIXEM IR! ME DEIXEM! ME DEIXEM IR!

Eu me pus aos berros, tentando me livrar dos braços que me continham à beira daquele abismo de dois metros a partir do chão, mas que parecia ser mais profundo que o poço que abrigava a minha alma. Puxei uma das cordas (usadas para lançar a mulher que amo na escuridão de microrganismos terrestres) das mãos de um coveiro e tentei envolvê-la em meu pescoço. De tão covarde, sem concluir o ato, eu desmaiei. Antes de apagar, entretanto, pude ouvir os gemidos dos coveiros:

- Ai, meu Deus! - Disseram ambos, em uníssono. 

...

São quatro da manhã e, como um despertador programado, o mesmo pesadelo me faz acordar suado e com uma quase arritmia. Às vezes gostaria que tudo fosse verdade. Nada é mais dolorido do que morrer para alguém ainda em vida.


"Coveiros gemem tristes ais
E realejos ancestrais juram que
Eu não devia mais querer você
Os sinos e os clarins rachados
Zombando tão desafinados
Querem,eu sei,mas é pecado
Eu te perder
É tanto,é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto."




Railma Medeiros

Twenty.




Como disse minha melhor amiga, a palavra é "obrigada".
Acabo de completar 20 anos. How old are you? Nunca mais pronunciarei o "teen" ao me apresentar na primeira aula de uma turma no inglês. Quão velha eu sou? Há pouco mais de um mês, ao voltar para casa de ônibus, me deparei com meu reflexo na janela e me vi ainda tão menina... Cheia de inseguranças, medos, esperança, fé nas pessoas - embora que um pouco menos. Quão velha eu sou? Nesta jornada há duas décadas, declaro não saber quase nada sobre a vida, que sempre me surpreende para o bem ou para o mal. A felicidade é um sentimento (ou conceito?) que abrange tantos outros... Cada ser traz consigo uma trajetória diferente para alcançar a plenitude, pessoas se frustram aos montes na vã tentativa de atender expectativas alheias, eu já estive inclusa nisso. 

A dor é condição existencial, assim como o amor. Se você está vivo, inevitavelmente sentirá. Acredito que o amor me ensina muito sobre o próximo, me conduz a sair da bolha, o meu coração disserta sobre como agirei. A dor, por sua vez, me ensina sobre mim: me põe em imersão dentro da minha personalidade, me faz pensar, realça minha visão sobre o mundo, faz com que eu reconheça os meus limites, me ajuda a ir pelo caminho certo. Sou grata por ter a capacidade de sentir, apesar das quedas, apesar da fraqueza e do temor. Sou uma pessoa que sente demais, consequentemente pensa demais, algumas vezes fala demais, escreve demais... De modo que certos momentos, para alguns até banais, são de extrema importância para mim. Estou aprendendo a lidar comigo, nunca deixarei de aprender

2015 não tem sido um ano fácil e, como resultado de um ano difícil, cresci muito. Acho que que crescer é a capacidade de continuar, independente do que aconteça ou de quem queira que você pare. Anos difíceis me fizeram reconhecer as verdadeiras amizades, os corações capazes de lidar, acolher, respeitar e entender os melhores e os piores sentimentos vindos de mim. Atender expectativas não é mais meu objetivo, porque as pessoas que realmente importam não esperam nada além do que eu sou. E isso me basta.

Obrigada a todos que me direcionaram bons pensamentos, sentimentos e palavras, obrigada em especial aos que fazem isso sempre. Obrigada, universo, por ter trazido quem me faz sorrir de verdade até em um dia complicado, cansativo e auto reflexivo. Obrigada, vida, por me mostrar que sou pequena, bem pequena e, ainda assim, me torno grande no peito de quem me ama.

Railma Medeiros