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Da vida, do destino.



Ele estava lá, como sempre esteve e jamais deixaria de estar. Ela continuava a mesma, com sua mania de importar-se demais e com todo aquele sentimento intacto. O travesseiro dele era coberto por ácaros pensantes... Seus sonhos mirabolantes grudavam naquela fronha e o nome dela estava por toda a parte. O travesseiro dela sentia frio, toda noite chovia e era salgado, corrosivo... Eram lágrimas, doíam demais. Havia outras garotas e outros garotos... Ela ouvia coisas sobre elas, mas quando o assunto era sobre eles o rumo da conversa mudava. Ele foi o primeiro a se apaixonar, ela a primeira a relutar... Ele não falou, ela não perguntou. Ele quis esquecer quando ela insistiu em lembrar. Dúvidas, muitas dúvidas. Tanto orgulho pra quê? Todo mundo sabia, eles negavam. Tanto medo pra quê? Pra não ter o coração partido, pra não sofrer, ninguém ali queria chorar. Pra quê? Pra quê? Corações foram partidos, dois pares de olhos regavam seus rostos. Ela decidiu ir, ficar ali só iria piorar... E buscava feições dele em qualquer cara que lhe desse um bom dia, ele procurava em todo mundo um sorriso mais bonito que o dela e tudo aquilo era vão. Como lidar com a ausência e a falta daqueles abraços? Pra onde correr quando o conforto só podia estar naquele colo, naqueles braços? Tentar ignorar era a única solução. Ele ergueu a cabeça, ela curvou o olhar, ele tomou o seu rumo e ela tomou todo o cuidado pra seguir o caminho oposto. Passaram anos, ele tornou-se um homem de negócios conhecido na alta sociedade, mais constante que as mulheres em sua vida era a solidão. Ela formou-se em psicologia, via magia em tentar entender cada comportamento, era lindo poder ajudar. Nos finais de semana cuidava de sua floricultura (puro hobby) e foi lá que o reencontrou, em um domingo nada movimentado enquanto lia pela enésima vez a antologia poética de Vinícius de Moraes. Não demoraram dois segundos para se reconhecerem e já sentiram os batimentos acelerarem. Eles se olharam nos olhos, mas não chegaram sequer a trocar um abraço ou a cumprimentar-se com dois beijinhos no rosto. Ele havia tornado-se um homem frio demais e o orgulho sempre foi uma característica forte na personalidade de ambos. Ele entrou pra comprar flores pra mãe, ela pensou que fosse pra namorada sem saber que ele queria que sua namorada fosse ela. Quando ele estava quase cruzando a portinha estreita de saída e ela já tinha voltado a ler seus poemas, ele hesitou. Voltou ao balcão, deu mais um sorriso, pôs em cima da mesa seu cartão com número o do telefone, arrancou o livro de suas mãos e colocou-o na posição correta de leitura. 

- Você lendo o livro de cabeça pra baixo e eu com medo de lhe entregar meu cartão. - Disse.
- É... Não mudamos nada mesmo. - Sorriram.

No outro domingo ele lhe trouxe uma fita cassete com poemas de Neruda e eles ouviram juntos. Seus amigos de farra começaram a chamá-lo de "seu babaca" e sua mãe de "filhinho", feliz da vida em ganhar flores toda semana.





Fobia.


Sim? Não? Sei não. Ou o meio termo, quem sabe... Não sou eu, eu não sei. É difícil escolher pra mim, não sou objetiva, sou pensante demais e tenho medo de tudo. Barata, trovão e daquele desenho... Ah, Caverna do dragão! Tenho medo porque aquilo é meu espelho, cara! Eu sempre me perco em mim, eu acho que consegui, eu acho que tô feliz e de repente o portal tão batalhado simplesmente fecha. Como pode? Será que não dá pra ficar aberto por tempo suficiente para que eu possa passar? O vingador na minha vida é o medo, sou pensante demais, tenho medo de tudo. Futuro, presente e até o que já passou. O que tem lá atrás me atormenta e temo que o que ainda está por vir seja só saudade, seja solidão. E quem quer isso? No final de tudo todo mundo quer um bom livro, uma música calma, no final todo mundo quer paixão. E adivinha só, eu morro de medo dessa tal paixão! Dizem que faz doer, que faz chorar e que pode ser a melhor coisa do mundo. É contraditório, detesto contradições. Eu choro de medo, dizem que paixão faz chorar... Isso tem alguma relação? Acho que estou ficando meio louca, estou me contradizendo, detesto contradições e não posso me detestar por isso, já detesto quase tudo. Tá vendo? É só falar de paixão que começo a falar mais besteira que o normal e falar sem parar e sem parar e sem par... Que sorriso você tem, hein? Fantástico. Sabe o que é engraçado? Quando você começa a falar de política e eu te interrompo pra falar que se continuar vou assistir novela, porque eu detesto política e você olha pra mim maroto e faz uma cara de "você não sabe das coisas". E eu não sei mesmo, de nada (mentira, sei da novela), porque tenho medo. Na verdade, acho que eu finjo não saber das coisas porque saber demais me dá medo e um pouco de ignorância não faz mal. Você sabe das coisas, não tenho muito o que ensinar a você. Só sei ter medo e escrever sobre o que tenho medo de viver. Você quer me ensinar a sentir, que audácia! Não dá, querido, não vou saltar de pára-quedas com você. Tá bom, avião eu aceito... É mais seguro. O que é isso? Você disse que ama o que eu escrevo e que ama o que eu falo e quando eu falo assim, sem parar. Você disse que ama as minhas reticências porque mulher de verdade sempre está se reinventando. Até meu cabelo? Mas meu cabelo está uma droga dessa cor! Você acaba de dizer que ama que eu não goste de política porque tá cheio dessas minas revolucionárias. Mas eu sou tão sem graça... O que é isso? Você me ama? Mas o que é amor? Vem depois da paixão? Tem os mesmos sintomas e efeitos colaterais, choros e etc? Não... Não olha assim, por favor! Não olha assim que eu tenho medo do seu olhar e do seu sorriso de "você é linda e boba e linda". Às vezes ser medrosa assim é ruim, mas já me poupou de ter o coração partido por mais de uma vez. Não olha assim que assim eu fico louca e perco o medo de sentir e eu morro, morro de medo de não ter esse medo. Agora estou embaixo dos cobertores abafando o grito no travesseiro e precisando de um uísque, mas tomando café porque tenho medo de mim bêbada. Não, não é por causa dos trovões lá fora, é por causa da calmaria e de você olhando pra mim sorrindo e dizendo "relaxa, menina". Meu grito é de felicidade e estou abafando pra não despertar o resto dos medos de novo, senão eles fecham o portal. Deixa eles dormirem, tô feliz.


                                                 

Sem fôlego.





Estou fadada, aos cacos, sem fôlego. Sinto frio e um desejo insaciável de você. Não estou a fim de nenhum ombro amigo e acho (quase tendo certeza) que quero chorar. As lembranças estão por toda parte... Nas paredes que testemunharam tristezas e alegrias, nas músicas, nos lugares por onde passo e na poeira dos livros que me destes. A saudade se finca entre as palavras de amor escritas em dezenas de pedaços e corações de papel, num xis no calendário e nas comédias românticas na estante da sala. Mesmo que o orgulho negue, sigo esperando o telefonema jamais recebido, a carta de amor nunca endereçada e vejo-me checando dia sim, dia não, a caixa de e-mails. Você partiu, ficaram as promessas... A gaiola sempre esteve aberta, mas estava certa de que você não partiria. Distraio-me, dou sorrisos, não preocupo os meus amigos, mas toda noite de insônia eu penso em te escrever para que do papel crie vida a minha dor, para que saibas que aqui ainda existe amor e tomes consciência de todo o mal que me fez. Pra expor o que eu nunca tive coragem de dizer, pra falar que quando estive com você o que tive tornou-se teu. Para dizer que me lembro de quando assistias às minhas temporárias partidas e me dizia que a coisa mais linda que podia haver no mundo era ver o amor sair pela porta e o vento trazendo-o de volta pela janela. Vejo agora o quão mais difícil torna-se a despedida quando ela é definitiva e como ainda assim pode ser linda, pois o trágico é bonito aos olhos de qualquer ser que sente. Nós éramos opostos, éramos o preenchimento do vazio, éramos correntezas de dois rios que indo em direções contrárias, cruzavam-se e tornavam-se um do outro, o destino. Quero te dizer que ainda te quero de volta, que estou disposta a qualquer coisa pra voltar a dormir... Abro novamente mão de mim para ser nós. Preciso te ter agora, preciso seguir sorrindo. Estou fadada. Aos cacos. Sem fôlego. Sem você.



"Então pegue o telefone
Ou um avião
Deixe de lado
Os compromissos marcados
Perdoa o que puder ser perdoado
Esquece o que não tiver perdão
E vamos voltar aquele lugar
Vamos voltar." (Perfeita Simetria - Engenheiros do Hawaii)



Brincando de desapego.



Você tem batido demais em minha porta e a solidão que está sentada ao pé da cama me olha querendo indagar se é ou não chegada a hora de poder partir. Balanço a cabeça negativamente e peço que ela espere para tomar mais um café, afinal são eles que tem me mantido forte e acordada por todo esse tempo. O telefone toca até parar e você me deixa mais um recado. Saudade? Dói, tipo quando se rala o joelho. Sangra, fica o hematoma roxo e depois de uma semaninha vai embora. Tenho me controlado bem, já estou fadada de descascar feridas. Tenho tentado deixar que você escorra pelo ralo como as lágrimas que deixo escapar no banho, quero que você pegue o mesmo rumo que a água. Quero falar tudo que eu sinto para um ser que não seja inanimado, pra você de preferência, por isso estou me preparando. Quero ver até quando conseguirei te ouvir me chamar e continuar sem responder. Quero te dizer que ter passado tanto tempo guardando sentimento só me fez mal, que inúmeras vezes eu quis sorrir de volta e correr pra te abraçar. Isso de amar pra dentro não funciona, no final a gente só consegue se machucar. Retraí-me, engoli o choro e desfilei. Soltei a sua mão e segurei com todas as minhas forças as do orgulho. Você como num reflexo, reproduziu a mesma cena. Nós nos escondemos um do outro e quanto mais brincávamos de desapego, mais voltávamos ao mesmo lugar de sempre pra falar besteira, ouvir música e rir das tolices da vida e do destino. No fundo sabíamos perfeitamente que estávamos andando em círculos, dando um giro no planeta e se esbarrando novamente, tropeçando e caindo um nos braços do outro. Só que você me magoou demais com suas atitudes e eu te mostrei como podia manipular as palavras, o quão amargas e ferinas elas poderiam ser. Aí nos maldizemos por aí, afirmando a qualquer um que perguntasse que nunca tínhamos nos pertencido verdadeiramente, que tudo não passara de uma brincadeira que como todas as outras, perdera a graça. Desviamos olhares, redirecionamos sonhos e evitamos os mesmos caminhos. Agora você percebeu que nem toda garota tem a graça do mistério que eu tenho e que somente a beleza física não te atrai suficientemente. Você começou a cansar de todas as bonitinhas que diferentes de mim, satisfazem todos os teus desejos, então começou a valorizar a inteligência e a opinião própria. Você percebeu querido, que as garotas mais loucas que existem são as que ainda possuem juízo e não as que têm o cabelo colorido. E eu? Percebi que pra ser feliz só preciso de alguém que não me faça temer à vida mais do que à morte, percebi que - por mais que uma sensação horrível de desgosto invada meu peito todas as vezes que penso nisso - esse alguém não pode ser você.



"Eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas." (Caio Fernando Abreu)

Primeira pessoa do singular.



Os meus contos são quase em totalidade contados no espaço de tempo em que o nó continua preso na garganta, a lágrima presa no olho e as palavras são teletransportadas do coração para a mão. Dificilmente escrevo acerca do que sinto, mas na tristeza costumo inventar dores mais doídas que as minhas e assim, sem querer, faço também doer corações que se vêem refletidos na minha escrita, corações colecionados por alguém... Corações que milhares de vezes são postos, nada cuidadosamente, no fundo de uma caixa velha junto a outros cacos. Vez ou outra faço sorrir rostos que se encontram cada vez mais inexpressivos com um bocado de doces e finais felizes. Por hora, vejo apenas um rosto diferente na rua, no ônibus lotado ou um casal que chora e começo, desenfreadamente, a imaginar motivos e situações. Nas entrelinhas deixo escapar quem sou, o que sinto, o que acho e assim, silenciosamente eu te falo com paixão que já fui boba demais, já sofri por amor, já amadureci mais do que o suficiente pra uma garota que ainda vai fazer dezesseis. Eu te conto, mesmo que às vezes você não perceba, que eu tenho um medo absurdo de crescer e deixar que o que me resta dessa inocência doce se vá para sempre. Digo-te metaforicamente, querido leitor, que o músculo mais forte do nosso corpo é sim o coração e nem tente enganar-se e dizer que não. Não adianta fugir, nesse mundo absolutamente nada acaba bem e no fundo restará a saudade, pois no final da linha está a morte. A infância, o seu (e o meu) pai falecido, qualquer outro ente querido. Amizades que morrem ainda em vida e que nos lembram a cada segundo que o ''para sempre enquanto dure'' não é nada fácil de realizar. Como? Se não vou falar da morte de um antigo amor? Querido colecionador/colecionado, o amor verdadeiro não morre sequer com a morte, porque o amor não está em nenhuma parte do seu corpo. O amor permanece na alma e sempre estará contigo. Como você pode notar, da dor da ausência eu sei muito bem como falar. Sabe, eu já bebi saudade de domingo a domingo, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia. Deixei por muito tempo de pintar meu arco-íris diário e vivi em escala cinza. Quando acabou? Quando a lágrima enfim caiu e o orgulho foi pro espaço. Cansei de ficar prendendo lágrima, coisa de covarde. Coragem tem quem dá a cara à tapa, chora e não quer nem saber. Que se dane o mundo! Eu deixei de brincar de esconde-esconde, cansei de ver rostos virados e inclinados pra qualquer direção que não fosse a minha e hoje, posso te dizer, me sinto feliz. O quê? Não, não. Já falei o bastante e não obstante, um dia tornarei a falar. O silêncio não mais permanece, meus lábios estão lacrados, mas minhas mãos descrevem mil vezes melhor o que sinto. Sempre, sempre, com muita paixão

 


O músculo mais forte do nosso corpo.

Já faziam anos e durante boa parte deles havia perdido seu tempo culpando-se. Ela lhe estalou um beijo na testa, apertou com toda a força que tinha e que era pouca comparada à dele, as grandes e nada delicadas mãos contra seu peito, deu-lhe um sorriso melancólico com ar de ''sinto muito'' e partiu sem dar demais explicações. Com um aperto no peito ele sentiu que seria a última vez que a veria e mesmo diante de tal situação, o orgulho impediu que fizesse algo. Por necessidade passou a odiá-la, chegou sozinho à conclusão de que seu coração definharia caso permanecesse sustentando aquele amor. De fato estava certo, porém sofreu por tempo demais e aquele ''músculo idiota'', como gostava de chamar, não era como antigamente. Interrompendo esse pensamento, recordava da voz que dizia que o coração é o músculo mais forte do nosso corpo. Deixou de ter autopiedade e por amor próprio tornou a ser um homem frio. Foi o dominador de todos os seus relacionamentos posteriores, que acabavam pela sua incapacidade de dizer o que sentia. Sentia falta por alguns dias, depois esquecia de cada mulher que passara pela sua vida e fora embora. Exceto, é claro, Dela. Havia se habituado à solidão e não fazia esforços para mudar. Escancarar sentimentos e dizer belas palavras não seria a solução, pois já havia experimentado fazer isso e somente Deus, caso existisse, saberia o quanto aquilo lhe fizera mal. Um filme contendo todas as lembranças boas e ruins passou em sua mente naqueles dois segundos em que olhava a folha depois de lida.


Amassou o papel e os seus olhos se encheram de lágrimasE aquela foi a primeira vez em que chorou por uma mulher. Guardou a pequena bola branca no bolso e sentiu-se irritado pela forma que ela ainda o conhecia. Por mais alguns segundos odiou aquela mulher com todas as suas forças. Depois veio o peso da preocupação, ela estava doente. "Esteve, no passado, ela falou que esteve, seu idiota!", corrigiu-se. Passou a mão pelos cabelos num ato de desespero, viu seu reflexo decadente nas cinqüenta polegadas da tv desligada e contra seu próprio orgulho percebeu o quanto a amava cinqüenta polegadas a mais do que a odiava. Era uma cartinha sem endereço, sem selo do correio. Provavelmente tinha sido jogada pelo buraco da porta por ela mesma. Estremeceu ao pensar que ela havia estado ali. Tirou do bolso o papel, desamarrotou e o apertou contra o peito do mesmo modo que fizera a mulher que ele mais amou cinco anos antes com suas mãos. Quinze minutos depois estava batendo na porta da casa dela com um lírio na mão direita e o coração na esquerda. A maçaneta girou, a porta abriu e atrás dela uma mulher completamente careca sorriu com os olhos marejados. Após um minuto inteiro que passaram se olhando, ela foi a primeira a falar. 
- Eu sabia que você viria.
- O coração é o músculo mais forte do nosso corpo, lembra? 


"Este amor que é
o túmulo onde jaz meu
corpo para sempre sepultado." (Vinícius de Moraes)




Dois R e uma dor.



As pessoas te olham, estão ao teu lado, por vezes te amam, mas não te conhecem. Tantas vezes a gente tem que ouvir e por amor, nada falar. A gente tem que aprender a perdoar, aprender que eles não são como nós e nem sempre têm esse olhar tão perspicaz sobre tudo, sobre o mundo. A gente tem que aprender a lidar com crises, superar os medos sem se deixar abater tanto... A gente tem que ver que ninguém morre de amor aos quinze anos de idade. O seu namoro acabou e tem gente esperando numa fila por um transplante, gente esperando pela morte numa fileira de macas no corredor de um hospital superlotado. Você enfrenta filas pra tudo nessa vida, a fila do amor-sincero-que-dura-eternamente é bastante grande. Espera. A gente tem que aprender a se livrar do que é banal, do que não te acrescenta, só diminui. Do beijo do cara bonitão que não te liga no dia seguinte e te deixa uma semana se sentindo um lixo, incompleta. A gente tem que aprender, por Deus, que quantidade não é qualidade. Tem que ter amor próprio, tem que aprender a conter o choro, tem que saber em quem confiar. A gente tem que largar mão de toda essa alienação, pensar com a própria cabeça, tem que voar com os pés no chão. Sabe o que é pior? Tem gente que julga muito a gente por não sermos nós os heróis a conseguirmos cumprir tantos ditos, conseguirmos concretizar tantos planos. E eu escrevo e releio mil vezes, tentando convencer a mim mesma que conseguirei. E repito mais mil vezes pro meu reflexo no espelho que não vou me apegar tanto, que vou me importar menos, que vou segurar a barra e todas as lágrimas. E eu consigo, minha superfície permanece intacta. Meu coração, em contrapartida, entra num processo de autodestruição. E dói ver que o passado me atormenta novamente, dói demais reviver tudo de ruim que outrora por pouco não fez de mim um pó. Dói fingir que estou bem por ser minha a função de bancar a muralha protetora. Sabe um muro de uma casa, dos mais altos, cheios de arames farpados? Ele protege os outros enquanto agüenta sol, chuva, pragas... É mais ou menos assim que eu me sinto. Sou forte, mas o reboco tá descascando, alguns tijolos estão caindo e ao mesmo tempo em que sinto que estou pendendo e indo ao chão, preocupo-me demasiadamente em saber em que lado cairei, a que pessoas machucarei.  E eu não consigo não ser assim. Por mais que eu saiba que é idiotice ser coração demais e até te diga que amor-próprio não é sinônimo de egoísmo, eu sempre vou pensar em alguém antes de mim (e te juro, não falo aqui de nenhum amor platônico). Porque eu me conheço e sei mais do que ninguém que para mim, maior que a dor da minha queda é a partitura de um coração que reciprocamente me ama. Aí eu olho pro espelho e insisto dizendo que tudo vai passar, que a paz tornará a reinar. Aí eu lembro das filas, da espera angustiante e ponho em mente a ideia de que o sol vai voltar e uma luz lá de cima me iluminará. Eu queria que fosse só mais uma parte de um dos pesadelos que constantemente têm atormentado as minhas noites, mas tudo isso pode ser resumido em duas palavras: ruim, realidade.  


"Invernos, impérios, mistérios, lembranças, cobranças, vinganças... Assim como a dor que fere o peito isso vai passar também."




As cartas de Anne Frank.



Os dias passavam com uma lentidão angustiante. Ela se apegava aos poucos livros, aos poucos amigos, ao seu travesseiro azul-cor-de-lágrima, aos pais e - principalmente - àquela carta cheia de letras bonitas, aquela carta que tinha o selo verde, como a esperança. A menina era a única ali que de vez em quando conseguia sonhar, vez em quando imagens doces, cenas de reencontro, substituíam os pesadelos carregados de medo, dor e morte. Ela tentava procurar em seus sonhos, em sua carta e em seu travesseiro motivos para continuar a sorrir. Os últimos dias estavam quase insuportáveis, muito mais difíceis e longos que os dias comuns. Sua irmã já lhe chamara a atenção, ela andava distraída demais nos afazeres do escritório, demorando demais na leitura, escrevendo pouco. A menina tinha diários, sim, mais de um confidente. Em um ela narrava o dia-a-dia no complexo, as dificuldades, falava da racionadíssima comida, dos inconvenientes companheiros e de sua revolta contra Hitler. No outro, ela escrevia cartas que tinham apenas um destinatário. Anne Frank, poucos sabem, tinha um amor. Suas palavras eram pontuadas com lágrimas, havia borrões por toda a parte. Que poderia fazer uma jovem judia apaixonada por um rapaz de sangue alemão, senão chorar? Fora seu pai, ninguém desconfiava de nada. A menina escondia-se, noite sim, noite não, levantava da cama com cuidado e escrevia por horas seguidas, até onde seus olhos aguentavam. 


"Sonhei conosco esta noite, Peter. Eu ouvia um barulho vindo dos fundos do complexo e me assustava, pensava que eram eles. Por algum motivo eu procurava papai e não o encontrava. Nem a ele, nem a ninguém. Eu ficava nervosa e corria para pegar meu travesseiro e sua carta. Arrancava fora a parte em que estava escrito o seu nome para que ao lê-la, eles não o castigassem também. Eu ficava de olhos fechados, escutava a porta abrir e os passos lentos a se aproximarem, estranhamente calmos. "Levem-me logo, me matem logo, não quero sofrer por tempo demais", pensei enquanto esperava. Uma mão áspera roçou em meu ombro e sorri antes mesmo de abrir os olhos. Não esquecera seu toque, não esqueceria nunca! Então eu acordei."

Enquanto as bombas destruíam vidas e levantavam poeira lá fora, Anne se perguntava se assim como ela, ele também escapara. As coisas estavam ficando fora do controle da Alemanha e enquanto os judeus eram encaminhados para os campos e viam o que restava de sua dignidade - literalmente - evaporar, soldados alemães eram mortos em combate, as cidades estavam indo ao chão. Peter não lhe enviara nenhuma carta fora aquela e isso a preocupava. Anne se questionava todos os dias o porquê daquilo tudo estar acontecendo. Não bastava ter sangue judaico? Não era azar demais? Isso era o de menos, ela não sentia culpa por isso, não havia sido ela a escolher nascer naquela família e com aqueles genes. O que maltratava o coração daquela menina era não ter evitado enquanto aquilo poderia ser indolor. Não ter parado enquanto podia, ter dado a cara à tapa e entregado de bandeja seu coração para aquele moço de olhos claros e cabelos louros, ter-se permitido apaixonar por um alemão, era o que a matava de culpa. Ela devia odiá-lo, como odiava a maioria, mas ele tinha um coração enorme como o dela, podia arriscar dizer que o músculo presente no peito de ambos, era maior que o fêmur de cada um. Ele sabia de tudo, ela confiava nele e em cada uma de suas palavras, em cada promessa e em cada sonho de um futuro bom. E foi por causa de um amor incondicional, que o mundo acabou para Anne Frank. 


Não foi por mal, de maneira alguma, não foi por mal. Assim como em Anne, em Peter também doía. Havia o peso da culpa imposto por toda uma nação sobre suas costas. Havia o peso de um amor proibido que levantava e abaixava a cada pulsação de seu peito. Certa noite, enquanto descansava após dias de confronto junto aos muitos colegas de alojamento, o rapaz se embriagou. Peter começou a chorar e sem se controlar, acabou contando tudo o que sabia. Ele não tinha noção do que estava fazendo, não estava habituado ao álcool devido sua pouca idade. Um de seus colegas, o maior defensor do Führer no alojamento, um dos poucos que ainda sentia prazer em estar ali, ouviu tudo e denunciou. Peter falara também das cartas escritas e não enviadas à sua amada. Envelopes com endereço e nomes, serviram de prova. Quatro dias depois do ocorrido no alojamento 322, após ser torturado e ameaçado, Peter foi obrigado a ir junto aos homens de uniforme e suástica ao complexo onde Anne estava escondida. Foram um, dois, três toques na porta da frente. A secretária que trabalhava na fábrica cujo porão era um refúgio judaico, não teve tempo de abrir a porta. "Heil Hitler", disseram. Sem uma palavra a mais eles saíram abrindo todas as portas e arrastando pelos braços um jovem de rosto bonito e machucado, cujo coração estava completamente dilacerado.

No porão todos escutavam passos e ficavam inquietos. Portas abriam e fechavam e os soldados arianos nada encontravam. Avistaram a última porta e um soldado sorriu para o outro, depois apontou com o rosto para Peter. O traidor foi instruído a entrar sozinho. E entrou. Anne soltou o travesseiro e a mão de sua irmã para correr ao encontro dele, que não conseguia balbuciar uma palavrinha sequer enquanto seus olhos viravam cachoeiras. Anne não conseguia entender por qual motivo Peter não se mexia enquanto ela o beijava. 
- Desculpe, Anne. Por Deus, me desculpe.
Do que está falando? Como chegou aqui? Você está vivo! Peter! - disse ela puxando-o pra mais perto. Ele não respondeu.

Os homens entraram, puxaram o rapaz cuja face transpirava medo pelos cabelos e na frente de todos ali, o chicotearam. A menina chorava enquanto via o sangue escorrer pelo peito que abrigava o melhor coração que já conhecera, presenciou os últimos suspiros de seu amado e foi impossibilitada de tocá-lo. Ela e os judeus ali abrigados, foram levados e tiveram o mesmo destino de todos os outros de sangue impuro. Os alemães que compactuaram com tudo, todos que trabalhavam no escritório, também foram castigados. 

E foi por causa de um amor incondicional descrito e expresso em cartas, que Anne morreu e matou as pessoas que mais amava.


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Nunca falei aqui, mas amo histórias narradas na segunda guerra, na Alemanha de Hitler. Super indico os livros "O diário de Anne Frank", "O menino do pijama listrado" e "A menina que roubava livros". Me inspirei nessas três histórias lindas e tristes para escrever esse texto, principalmente na primeira citada. Desculpem-me pelo tamanho do texto, mas não pude me conter. E por favor, só comente se realmente tiver lido. Um beijo.


Te espero.



Eu não queria mudar e caso isso não acontecesse, eu sabia que aquilo nunca teria um fim... 

Ao forçar um sorriso de bom dia para o mundo que me rodeava, notei rapidamente a necessidade que tinha de ficar sozinha. Evitei o máximo de olhares que pude e voltei ao meu quarto. Logo depois vieram em forma de flashes os sonhos da noite anterior. Compreendi que o que eu verdadeiramente queria e precisava, não era ficar sozinha. Mais do que em qualquer outro dia eu sentia a sua falta e como te ter não era possível, o que restava era tentar me isolar de um universo em que você não se fazia presente.
Assim como eu (meu orgulho e minha tão grande força), tudo ao meu redor era contraditório. Bem à minha frente estava um quadro na parede, um reflexo meu. A garotinha tinha pele clara, cabelos castanhos partidos ao meio e olhos... Sabe, olhos de quem acabou de chorar. À minha esquerda, outro quadro. Mesma moldura e mesma menina. Agora ela tinha em mãos uma flor amarela e na cabeça um chapéu também com flores. 
Dei-me conta que havia passado toda minha infância enganada, vendo grande diferença onde não havia uma mínima alteração de contraste. 
    Achei durante muito tempo que o que diferenciava as duas pinturas era que em uma estava uma menina triste e em outra, uma menina feliz. Uma menina pobre e outra rica. Não! Elas não eram irmãs gêmeas separadas na maternidade, elas eram metades de um só ser. A menina com flores carregava nos lábios um sorriso, mas não era possível atribuir à ele a palavra felicidade. Ela tinha melhores roupas e um chapéu bem bonito, mas seus olhos eram os mesmos. A garota à minha esquerda era o que as pessoas enxergavam ao me ver. O significado de seu leve sorriso ninguém jamais entenderia. 
Na mesinha, à direita da cama estavam dois livros, ambos tinham me salvado do tédio como uma boia salva uma criança que ainda não aprendeu a nadar. Um deles tinha a capa preta e o outro a capa branca. Uma brisa entrou pela janela me trazendo alívio ao ver que o livro de capa branca tinha mais páginas, era bem mais  pesado. 
Mantive-me distraída por um bom tempo, mas as lembranças vieram. Inevitáveis. Você também tinha suas contradições e ao mesmo tempo em que me convidava para fazer planos de um futuro bom, me alertava para que estivesse pronta para a partida. 
Agora dói, está doendo e por mais que isso que não me sirva de consolo, eu sei que vai passar. Tudo passa. O tempo - mesmo que contra todas as nossas vontades - passa. As pessoas passam e nos obrigam a abir caminho para que antigos sentimentos morram. A dor se vai e quando não se vai, se esconde. O choro cessa. 
Na parede em frente à minha cama num dia frio, talvez eu ainda veja um reflexo de mim com um olhar triste e um cabelo sem graça partido ao meio. Só que depois eu vou levantar da cama e sair do quarto, vou olhar pro quadro à minha esquerda, abrir um sorriso e sair na rua. Se meus olhos parecerem tristes, como o previsto, eu curvo os cílios e ponho uma sombra bem colorida, jogo meu chapéu ao vento, ponho a flor amarela atrás da orelha e vou tentar sobreviver a tudo de triste e nostálgico que me espera lá fora.
Te juro que espero de todo o coração poder tropeçar numa pedra e cair novamente em teus braços, mas não posso apenas esperar. Não posso viver num luto que nem deveria existir. Você não morreu em mim e por mais que todas as partes de meu corpo e de minha alma doam a ponto de se contorcer com a canção de ninar, eu tenho que te deixar adormecer aqui dentro. O livro de capa branca é mais pesado que o de capa negra e toda essa luz que ele transmite, me traz paz.
Agora eu vou viver e aceitar o fato de não poder caminhar com você. Vou tentar viver sorrindo, com os pés no chão firme, com o pensamento positivo e a esperança de que no futuro haja um "nós". Sorrindo e com a esperança de que na próxima esquina eu possa te encontrar e ver um sorriso florescer em teu rosto ao ver sair de meus lábios palavras doces compondo frases como "senti sua falta" e "eu amo você". 
Agora fecho os olhos, contenho as lágrimas e imagino estar te abraçando. Lembro da sua voz doce me dizendo que tudo tornará ao seu devido lugar.

Te espero
Sempre sua, Angelina.




Crescer dói.



Eu não consigo entender mais nada. Nadinha, nadinha. Eles falam que eu tenho que crescer, que já está na hora de agir como gente grande, mas eles me amedrontam o tempo inteiro. Eles me fazem promessas e ao mesmo tempo pedem que eu não acredite em nenhuma delas, porque eles não querem me decepcionar. Eles falam que a dor faz a gente ser mais forte, que um dia os cortes viram cicatrizes e fazem delas mais uma marca de maturidade. Eu sei de tudo isso, não preciso que me digam, porque aprendi com a vida e sei que cada bofetada que levei na face fez com que ela ficasse mais rígida e cada vez menos expressiva. Meu rosto aprendeu a esconder meus sentimentos e agora, quase involuntariamente, um sorriso aparece nele por cada lágrima presa nos olhos. Eles não compreendem que eu preferiria mil vezes não saber de tudo o que sei e ter de volta toda a minha inocência, só pra tirar de mim todas as marcas de um passado tão recente. Porque eu sei que minha dor é ímpar, porque eu sei o quanto ela é devastadora quando estou na escuridão do meu quarto, no elevador do meu prédio, no ônibus e em todos os outros lugares em que fico sozinha. A conversão de meu choro em risadas também os enganou e eu não os culpo. Fui eu quem quis assim, não posso querer que eles enxerguem o que eu escondo tão perfeitamente bem. Alguns agregam à mim, a imagem de uma pessoa forte, uma muralha. Mas é disfarce, tudo disfarce, sou fraca, sou fraca! Forte seria se fosse capaz de mostrar minha fragilidade, se fosse capaz de expor a um amigo as minhas lágrimas, se desse a cara à tapa e parasse de camuflar sentimentos em cima de personagens e mais personagens. Mas eu tenho medo. Sou covarde. Afasto os que são capazes de me tirar da fantasia. Afasto sempre porque no final todos vão embora, porque as pessoas mais dignas de meu amor, sempre tem de ir. Sempre tem algo que quebra, desencaixa e não volta ao lugar. Eu quero correr sempre de mim mesma, quero correr sempre do que me faz completa. Amedronta. Amor demais me amedronta. Me faz ter vontade de sair pela porta e não voltar nunca mais. Se eu não for magoada, magoarei alguém com esse meu orgulho imbecil. Eu não sei, mas preciso, meu rosto precisa respirar sem essa maquiagem. Eu quero o ombro que aconchegou minhas lágrimas, a mão que eu pedia a benção e segurava a minha quando eu tinha pesadelos. Eu quero conseguir continuar sem ferir ninguém, sem me ferir. Não sei se quero crescer agora, porque crescer exige coragem. Pra crescer mais, temos que cair mais também. Já vivi, caí e cresci o suficiente pra saber que cair dói. Crescer dói. 





No fim de tudo é só saudade.


Pensei que seria apenas mais um dia, mas naquela tarde de segunda-feira tudo estava pior do que o normal. Pensei que levantaria da cama com o coração doendo e os olhos inchados, comeria alguma coisa e deitaria no sofá para assistir tv até adormecer. Minha rotina era sempre essa desde o dia em que ele partiu. Não, tudo era diferente, tudo mesmo. Eu estava cansada da televisão e de dar audiência a programinhas fúteis, não estava com nenhum pingo de fome e meus olhos lacrimejavam mais que o habitual. Reli aquela bendita carta pela milionésima vez e fui lavar o rosto. Vi meu semblante completamente abatido, fechei os olhos num suspiro e ao abri-los dei de cara com uma nova imagem: Éramos nós que estávamos lá. No espelho um fraco reflexo de um amor que saiu pela porta, porém nunca se foi. Chorei silenciosamente por minutos seguidos e a cada vez que abria e fechava os olhos, o mundo girava e a cena mudava. Por um momento pensei estar num sonho, mas era real demais e estava doendo demais para que eu não estivesse acordada. Eu poderia até estar louca, de fato, mas dormindo é que eu não estava. Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali, mas aquela era a primeira vez que eu o via. Dane-se se era delírio e se me machucava, eu o tinha e naquele momento ele era apenas meu. Comecei a ouvir vozes, imaginar mais um diálogo entre nós. Quando nossos lábios se tocaram, pude sentir o efervescer de meu corpo e então sorri, mesmo que chorando. Ele levou malas cheias de roupa, levou os porta-retratos, mas continua em meu peito e as paredes do nosso quarto ainda são testemunhas do nosso amor. O sentimento ficou, ficou o silêncio, ficaram vários nós, vários pontos de interrogação. De repente o ouvi dizer que ia embora, que eu o conhecia e que tinha sido erro meu acreditar que ficaria para sempre. Lavei o rosto novamente e ao olhar no espelho ele tinha ido junto às lágrimas. Respirei fundo e conscientizei-me de minha parcela de culpa em toda a situação, pois ele nunca me iludira em relação ao seu tempo de estadia e uma hora ele partiria, mesmo dizendo que me amava. Prometi a mim mesma sair daquela situação, percebi que não havia nada de tão diferente naquele dia, foram só algumas doses a mais de saudade e eu teria de agüentar, passar por cima daquilo e viver.



   

Pretérito.




Estava com uns nós na garganta e tinha a impressão de estar sendo enforcada. Estava com umas lágrimas nos olhos e tinha a impressão de que estava chovendo dentro de mim. Uma tempestade de lembranças e dores que compunham uma coreografia triste em meio à escuridão. Discretamente fui ao banheiro e abri depressa minha bolsa, precisava retocar a maquiagem. Olhei no espelho e vi uma garota linda, linda e triste, sempre atriz. Menina boba, sempre fingindo ser feliz. Passei a mão pelos cabelos, respirei fundo e novamente olhei meu reflexo a fim de perguntar a mim mesma se estaria pronta para o que me esperava naquele salão. Saí dando passos firmes, com a cabeça erguida. Ele estava lá, sentado em seu lugar, taça na mão. Ao seu lado, os mesmo amigos, os nossos amigos. Os rapazes me viram e um deles acenou me chamando, pedindo para que me aproximasse. E lá fui eu com passos não tão firmes quanto antes, com as mãos trêmulas, a garganta seca e o coração vazio. Ou não. Sorri, cumprimentei a todos, inclusive a ele. Coitado, boquiaberto. Só ali pude crer nas palavras que ouvi durante toda a noite... Eu estava linda. 
- Você está diferente, mais linda do que nunca. 
Sorri agradecendo e fui convidada para sentar. Que constrangimento... Eu estava louca para sair correndo dali, mas já havia fugido demais. Para a surpresa de todos peguei uma taça de vinho diretamente da bandeja do garçom que passava na hora e sentei. 
- Então, há tempos quero conversar contigo.
- Fale-me agora, estou no 'modo paciência'.
Aproximando-se de meu ouvido, cochichou:
- Não aqui. Vamos para um lugar mais discreto, para que possamos ficar à vontade mesmo.
Não contive o riso.
- Você realmente não perde o senso humorístico.
- Já foram algumas taças de vinho, você sabe. 
- Sei sim. 
- Ao menos você continua me achando engraçado. É um começo.
- Nós começamos há algum tempo.
- Encaremos como um novo início.
- Querido, dou risadas indo ao circo, acho palhaços engraçados e não inicio nada com eles.
Todos na mesa me olharam naquele instante espantados com a resposta saída de minha boca.
- Modo impaciência ativado. - Sorri sarcasticamente - Não foi apenas a minha aparência que mudou. Com licença, senhores. - E levantei. 
Tudo doía, dos pés à cabeça, tudo doía. Só que a dor maior estava na parte de cima, especificamente entre o queixo e o estômago ela era insuportável. E eu que pensei ter o coração vazio... Cumprimentei mais algumas pessoas, esperei um tempo e fui novamente ao banheiro. Não sabia como conseguira dizer aquilo, como conseguira agir daquela maneira, mas estava orgulhosa de mim mesma. Joguei a cabeça para trás querendo fazer com que aquelas malditas lágrimas entrassem novamente em meus olhos e respirei fundo outra vez. Sorri forçadamente, mas sorri. Dei a mim mesma o melhor sorriso que pude para voltar àquele salão e brilhar por mais que minha vontade fosse de voltar pra casa e dormir. A madrugada deu o ar da graça e eu continuava lá. No carro à caminho de casa eu chorei, mas ele nunca soube e nunca saberá e isso é o que me basta. Se for pra ser frágil e chorona, que seja somente para mim mesma ou para o travesseiro.
Passaram algumas semanas e quanto mais tempo ficava sem pensar nele, mais a dor ia sendo esquecida, mais distante o sentimento ficava da superfície do meu peito. Ele ainda existia dentro de mim, certamente, mas a saudade com o passar dos dias ia sendo substituída por outra palavra: passado



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