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Lembrei de você.



Natal, Rio Grande do Norte, Eu-Sem-Você. 



Antes de qualquer equívoco que eu venha a cometer (pois sei que vou), quero logo tratar de dizer que estou completamente alcoolizada e sabe lá Deus como minha falha coordenação motora me permite te escrever no estado em que me encontro. Surpreso? Nunca bebi na sua frente nem na frente de ninguém exatamente por isso, por saber o quão patética e chorosa fico. Aqui em minha e só minha casa estou a sós com as paredes, mas como já parei de levar o copo à boca elas não conversam mais comigo, apenas ouvem. Essas paredes adoram me ver chorando. Ah! Os porta-retratos na sala são como pequenos filmes antigos sendo executados, aqueles filmes que a gente chora por não ter um final feliz como o da personagem. Eu choro por não ser mais a mocinha, por não ter mais você como par romântico e por não girar em seus braços numa colina verde com o céu cor-de-rosa mesclado com azul e branco. Sempre gostei dessas três cores em combinação, você sabe... Mas agora é tudo tão escuro, tão nublado, não tem calor nem brisa. Como ando? Eu até que vou legalzinha, tenho saído bastante, trabalhado mais do que preciso para distrair a mente de você e ainda sendo bem-remuneradíssima por isso. Parei de escrever aquelas histórias belas e também as tristes e melancólicas, parei de escrever histórias. Escrevo somente na época da junção TPM+Whisky, que te destino cartas que nunca foram entregues e permanecem intactas na gaveta do nosso antigo quarto, agora só frequentado por mim e a minha constante nostalgia. Mas essa eu quero te mandar, não vou esperar o amanhecer do dia, a ressaca e o senso de ridículo, vou pôr nos correios assim mesmo. Você deve estar muito bem, né? Sempre teve maior habilidade para sorrir mais verdadeiramente do que eu, que vivo fingindo... É, meu bem, posso até não ter um final feliz, mas continuo sendo uma excelente atriz. Qual o motivo de eu simplesmente não virar e dormir, de insistir em te mandar essa carta mesmo sabendo que você poderá não me responder e que eu passarei o resto da semana com o peso do arrependimento nos ombros? Bom, antes de ontem, após uma noitada cheia de danças, apertos e beijos, cheguei em casa com o dia amanhecendo. Abri a porta, subi as escadas, tomei um banho e saí do banheiro secando os cabelos quando a luz que vinha da janela do quarto agrediu meus olhos cansados. Aproximei-me dela para fechar as cortinas cor de champanhe (sua bebida preferida), aí eu olhei bem e lá longe por trás de uma nuvem vi o sol se impondo sob o céu azul clarinho, raiando manso, deixando coloridas as janelas do meu prédio, inclusive a do meu quarto, e secando as gotas de chuva de algumas horas atrás, na madrugada. Depois de muito observar me direcionei para a cama e dormi o dia inteiro e um pedaço da noite, acordei poucas horas atrás e voltei a beber. Ao acordar lembrei de você, não que eu tenha te esquecido dia algum, mas é que me dei conta de que até agora eu só havia sentido sua falta. Lembrei de você, só que esse lembrar doeu mais do que a soma de todos os outros dias vezes um milhão, porque hoje pela primeira vez eu senti saudade de verdade, vontade de morrer se não for pra te ter e é ela que me encoraja te permitir ler tudo isso. As doses tomadas nessa madrugada de domingo foram quase todas expulsas de dentro de mim ao tirar do peito todas essas palavras, e mesmo quase lúcida ainda quero que esta carta seja entregue. Tudo por causa do sol que por mais quente não seca minhas lágrimas, e é como se você e o sentimento a ti direcionado crescessem mais a cada dia, a cada minuto. Eu ainda tenho rios de lágrima capazes de inundar a mim e à minha mínima felicidade, tenho também algumas gotas de esperança, esperança de que essa casa seja novamente nossa e de que essa cama seja compartilhada todas as noites contigo. Tenho plena consciência do risco que corro de não receber uma resposta e estou preparada para isso, pois não sei se minhas palavras (por vezes contraditórias) ainda causam algum tipo de emoção em você. Por três dias esperarei que você abra essa porta de repente com a chave que ainda tem, me puxe pela cintura e me empurre contra qualquer porta, geladeira ou parede, logo após quero que derrame em mim a garrafa de champanhe que estará sobre a mesa e beba, beba e se embriague com o álcool e com o perfume do meu corpo, se embriague com o meu e me deixe novamente embriagar com o seu, com o nosso amor.


De sua eterna guardiã, Angelina.








Outra vez, nós.


Eu não sei explicar direito, mas depois de todo esse tempo, percebi que te ver ainda deixa as minhas pernas bambas e meu coração freneticamente palpitante. Aí você vem de mansinho, com todo esse teu charme e esse teu jeito que me tira de chão e me faz suspirar, segura a minha mão e sussurra aquelas mágicas palavras nos meus ouvidos: Eu sinto a sua falta. Posso até ter silenciado, mas no brilho dos meus olhos estava escrito "Eu também sinto". E sinto mesmo, não sou capaz de negar. Você... Você que deixou a minha pele morna no inverno, que soprou frio em minha nuca no verão, que trouxe o brilho do sol para minhas noites e o aconchego escuro da noite para os meus dias. Com você tudo era diferente e depois que você foi embora, os dias não passavam de dias, as noites sempre escuras, o verão sempre quente e o inverno sempre frio. Tudo perdeu a graça, sabe? E eu acabei por me habituar a viver assim, em meio ao comum. Eu te arrancava sorrisos, mesmo na dor... Eu te fazia chorar com as minhas palavras doces e apaixonadas, mesmo que tudo fosse só alegria. A cada semana um fragmento de você ia se esvaindo de mim, e mesmo que eu não quisesse, eu sabia que era preciso. A dor de te guardar completamente era in-su-por-t.á-vel. Porém, me enganei ao pensar que você tinha partido completamente. Mesmo sem as nossas antigas fotos, as lembranças aqui ficaram dentro de meu peito e de minha memória. Maldito orgulho que não me deixou te procurar, que não te deixou me procurar. O orgulho, o orgulho que foi superado pela linha do destino que num dia comum me fez esbarrar em você no meio da multidão, mais uma vez. Você lembra? Lembra do dia em que nos conhecemos, da conversa que tivemos? Dois loucos chorando na mesa de um bar, um contando sua história para o outro, afogando no fundo de um copo de whisky  os nossos desamores. Lembra do primeiro beijo e da primeira flor que me deu? Do primeiro verso de Shakespeare que citou? Facilmente você me conquistou. Um romântico, um boêmio, um louco, uma barba mal-feita. Nós éramos tão parecidos... Os mesmos medos, as mesmas inseguranças, o ciúme, as brigas, a dolorosíssima  despedida. Nós somos tão parecidos... Um abraço, um olhar, algumas palavras e a certeza de que juntos devemos novamente ficar, agora definitivamente, talvez, quem sabe, para sempre. Outra vez você, outra vez nós. Não quero mais cometer os mesmos erros, chorar pelas mesmas dores, calar pelos mesmos motivos ou ter medo de provar os seus tantos amores, sabores... Eu quero te dizer tudo aquilo que eu não disse, gritar sussurrando diariamente em seus ouvidos, que apesar do tempo e de tudo, sim, eu te amo muito.



"Este infinito amor de um ano faz, que é maior que o tempo e do que tudo, este amor que é real e que, contudo eu já não cria que existisse mais."





Tempo ao tempo .





É triste, doloroso, árduo ficar sem você. Mas, me diga quais são as minhas escolhas? Eu peguei de volta as suas chaves e estou impossibilitada de levantar daqui para abrir a porta. É certo que seria incomparável o sorriso que surgiria em meu rosto ao te ver entrar, e mais certo ainda seria o processo de esmagamento do meu coração ao te ver partindo mais uma vez. Porquê você sabe, e felizmente agora eu também, que seria essa a ordem cronológica dos fatos. Eu não posso mais suportar o vai e vem das ondas do teu mar, não quero mais ser estonteada pelas suas piruetas e coreografias (para mim quase letais). Não que eu vá te esquecer, mas eu preciso me libertar de você e deste sentimento que tanto me faz mal. Não que ele seja mais amado, mas é que ele tem o poder de me arrancar sorrisos. Não que você não tenha feito isso, mas ele me faz sentir segura de que esta alegria é constante e agora não vou dormir com medo de que ao acordar estarei a sós com um bilhete de despedida. É, alegria... A soma dela me trará a felicidade novamente. Você não sabe o quanto eu gostaria de te deixar ficar, mas aceitar as suas condições ultrapassaria os limites daquilo que eu chamo de amor. Como assim, o amor não tem limites? Tem sim, para os que não são masoquistas. Agora vai doer, está doendo, mas eu sei que vai passar. Afinal, tudo passa, não é mesmo? Com o amanhecer de cada dia as feridas que agora estão abertas e sangrando, entrarão em processo de cicatrização. Não sei bem se neste momento podemos ser amigos, não sei ao menos se você quer isso. Acho que a proximidade agora poderia dificultar tudo. Sou fraca, ficaria facilmente hipnotizada pelo seu olhar e pelo som da sua voz. E você certamente tiraria proveito disso. Estou partindo de vez e não pretendo voltar, preciso dar um tempo ao próprio e lento tempo. É que hoje em dia não tenho mais certeza de que você realmente me ama ou amou, mas se tem uma coisa que estou completamente convicta é de que eu preciso me amar. 






Eu norte, você sul.



Porquê me deixou aqui? Está escuro e eu tenho frio, tanto que as lágrimas que escorrem em meu rosto estão se petrificando.  Dói, ai, como dói! Você partiu mais uma vez e o trágico fim se executa em minha vida. Sozinha. Sem você. Em casa apenas a cama vazia, um lugar a mais na mesa e as paredes estampadas com as nossas fotografias. O telefone não chama, a campainha não toca. É, você não volta. Eu já previa que isso poderia acontecer, e mesmo assim, insisti em deixar fluir. Eu te olho de longe entrando por aquela porta com um sorriso lindo no rosto e passando direto por mim, como se eu fosse imperceptível ao seu olhar. Será que meu ser diminuiu tanto assim quando você partiu? Eu evito ir nos mesmos lugares, usar os mesmos perfumes e escutar certas músicas, mas não posso controlar o pulsar do meu coração, não dá. Você parece estar feliz ao lado dela, e para ela está dando o amor que a mim não pôde dar. Eu não sei de quem foi a culpa, minha ou sua, não importa. Você chorou, agora sorri e eu permaneço aqui. Na frustrada tentativa de te esquecer eu saí, dancei, bebi e conheci outros caras. Hoje foi a minha última noite, agora realmente percebo que nada valeu à pena. Pura perda de tempo. Eu me divirto a noite inteira e ao voltar pra casa, novamente, sinto sua falta. Falta de um casaco no ombro, de uma mão segurando a minha, falta de um beijo de boa noite. Você está vinte e quatro horas por dia presente dentro de mim e te ver só intensifica o meu sofrer, o meu querer. Eu ouço teu riso com dor e amor, eu percebo cada movimento teu nesse grande espaço que há entre nós. Eu norte, você sul. Eu América, você Oceania. Ela sua, você dela, eu de ninguém.  Só aqui, nessa rua vazia, sem beijo nem abraço, sem um braço estendido em minha direção. Só aqui, chorando pelo que já foi, por aquilo que não volta. Só aqui, abaixo do céu nublado, a chuva prestes a cair... Daí voltarei sozinha pra casa, toda molhada, sem calor nem proteção. Sem você e sequer algum vestígio de algo que se assemelhe ao amor.


"No coração ficou lembranças de nós dois. Como ferida aberta, como tatuagem."