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Perdoa.




Talvez com o passar do tempo eu esqueça alguns momentos ou o nome de um colega de classe. Talvez o trabalho me consuma e faça passar despercebida uma data de aniversário, mas do dia que vi pela primeira vez seus olhos, eu não esquecerei. Ao encostar a cabeça no travesseiro sorrio segurando as lágrimas ao lembrar do nosso primeiro beijo. Vejo horas iguais e lembro do teu nome e da sua maneira peculiar ao dizer  "eu te amo". Lembro das minhas crises de ciúmes não expostas, lembro de suas tentativas frustradas de me fazer te deixar. Das vezes que você dizia me odiar de tanto amar, de tanto querer, de medo de perder, medo do poder que tinha a pequena menina de sorriso bonito de despertar em ti o lado mais verdadeiro, mais sensível e mais sincero. Tanto tempo, tantos sonhos compartilhados, tanto sorriso, tanto doce, tanta noite, tanto luar... O calor dos seus braços, o teu abraço, o teu violão e a sua voz fazendo dança suave em meus ouvidos me fazia ter vontade de cantar também. O destino te levou pra longe e novamente brincou com a gente... Ao menos nos meus sonhos você é freqüente, já que na porta de minha casa não mais bateu. Tô lembrando do teu cheiro, do sorriso pendurado na parede por aquele porta-retrato, saudade de ver escrito na parede do teu quarto o meu nome... Tô querendo abrir aquela caixa e pegar o cd que você me deu pra reativar em mim nossa música. Eu quero que você me cale, peça pra eu pôr uma saia mais comportada e que tire da minha mão a terceira taça de champanhe seguida. Quero que ria das tolices que eu falo e que bagunce o meu cabelo. Quero que me xingue, me chame, que jogue em mim toda a culpa, mas acima de tudo, que me ame.  Perdão por ter sido eu, ao contrário de você, uma covarde. Mil vezes perdão... Quero que diga que fui uma tola ao ir embora, que fui uma tola ao ter tanto medo do sentimento que hoje me mata por não estar presente. A única coisa que quero é poder caminhar ao seu lado, ter 

sua mão segurando a minha, para sempre.  


Volta pra mim?





"Cause every night
I'm talking to the moon
Still trying to get to you."


A lágrima que não caiu.





Mais uma sexta-feira fria, fria... Esse inverno parece não ter um fim! Meus amigos preparam-se para sair enquanto permaneço aqui com meu moletom cinza-claro e uma xícara de café ao alcance das mãos. Ando acomodada demais, com preguiça demasiada de bancar a adolescente fútil e dentro do padrão. Falta-me paciência para conhecer pessoas, me falta disposição para montar em um salto alto e usar todas as máscaras disponíveis em meu estojo de maquilagens. Mas você já sabe disso, ao menos disso você sabe! E que eu sinto sua falta, você sabe? Que eu jogaria tudo pro alto por um sorriso seu? Não sabe, não faz idéia. Refiz nossos caminhos e revivi nossos momentos em sonhos, um por um.
Você me puxou fortemente contra seu peito e de mim roubou um beijo, o mais maravilhoso de todos. Mal sabia eu que ao desprender-me de seus braços deixaria contigo meu coração... Saí cambaleando naquela noite, minhas pernas mal obedeciam aos comandos do meu cérebro e com os dedos da mão direita sobre os lábios, eu não sabia o que se passava dentro de mim...  Gostaria de te dizer que as poças daquelas ruas ainda refletem nossos rostos frente um ao outro numa distância quase imperceptível. Ainda refletem minha mão direita e a sua esquerda, sempre unidas... Refletem nossos sorrisos e todos os nossos sonhos. Dentre tantas imagens belas, contrasta fortemente o nosso adeus, a tempestade vinda de seus olhos e decorrente delas, mais algumas poças. Em meu rosto um sorriso forçado e o esforço enorme para não piscar os olhos, para não deixar chover em meu rosto, para não formar mais poças naquela rua (agora tão sombria...). Eu não podia, não suportaria viver temendo a mais um de seus vôos, mais uma de suas partidas. Não suportaria a angústia de esperar que uma asa fosse ferida para poder te cuidar e não acreditava que daquela vez fosse diferente. Pois bem, após ver um oceano em teu olhar acreditei e era tarde demais para voltar atrás... Aprendi a conviver pacificamente (ou não) com a saudade, que já não é mais tão cortante assim. Aquela noite está guardada em meu peito e junto ao embrulho está a lágrima que não caiu, o orgulho que prevaleceu e como conseqüência, toda a dor. Em noites assim, após xícaras e xícaras de café (ou algumas taças de vinho) o peso que carrego do lado esquerdo vai subindo, vai subindo e subindo até ficar preso na garganta, me impossibilitando de dar o goto. Pouco a pouco ele vai descendo e um por um, escorrendo. Espero que um dia cheguem até você todos os sentimentos não demonstrados, todo o meu ciúme retraído e todas as lágrimas que inundam as entrelinhas destas palavras. 

Para finalizar toda a nostalgia, a mais marcante de todas as poças:



Então me olhou sorrindo enquanto amarrava em meu dedo uma pequena fita de cetim azul-como-seus-olhos.

- Por que está fazendo isso? - Perguntei.
- É para que você nunca se esqueça de mim.


Funcionou





Esconde-esconde.






Natal, Rio Grande do Norte, 09 de janeiro de 2011.

Olá! Quanto tempo, não? Como sua boca provavelmente se encontra bastante aberta, feche-a e respire fundo, pois essa carta pode surpreendê-lo bastante... Não sei te dizer especificamente o motivo de vir te escrever, mas provavelmente entre tantos está a saudade. Ah, a saudade! O amor, a paixão, são representados pela cor vermelha por ser ela a cor do sangue, a cor do coração... A saudade é sangue preso e sangue preso é roxo. Saudade é feito um hematoma conseqüente de um impacto forte, é algo que está ali e muitas vezes em cantos que só nós podemos ver, só nos sabemos onde está e quando passamos a mão sobre ele, vem aquela dor fina, finíssima. Neste exato momento essa pontada atinge meu peito e se eu der bobeira meu amigo, me sufoca facilmente. Ouvi dizer por aí, que nos últimos tempos você andou assim, sentindo saudades de mim. Não! Não brigue com aquele a quem confiaste esse segredo, pois ele é teu amigo e só quer te ver bem. Bom, vamos lá, tenho tanto para te falar... Quero logo tratar de te pedir perdão por tudo aquilo que eu não fiz. Perdão por não ter telefonado nem escrito antes, perdão por não ter atendido aos seus milhares de telefonemas naquela última semana de julho. Perdão por ter fingido não te perdoar, ter fingido te odiar quando o que eu mais queria era deixar de lado o passado e andar um mundo de mãos dadas com você. Você sabe que o orgulho sempre esteve presente em mim. Erros foram cometidos em ambos os lados e feriram a ambos os corações. Qual foi mais estilhaçado não importa mais.  Hoje escutei aquela música na rádio, a primeira de Djavan que você tocou pra mim e realmente me senti tocada. Quer saber, quando é assim deixa vir do coração! Depois disso resolvi me inundar em versos, em poemas e estou aqui feito boba escrevendo sobre minhas teorias loucas acerca da saudade, escrevendo sobre amor, vencendo meu até então interminável orgulho e te pedindo perdão. Feito boba, meu bem! Feito uma criança boba! A minha velha agenda de capa roxa (por mera coincidência) está aqui do lado e nela tem seu nome escrito junto ao meu com a minha e com a sua letra. Ah, não quis mesmo te ligar... Não sei como meus ouvidos reagiriam perante tal situação, perante a volta de sua voz docemente grossa tão pertinho deles. E o meu coração? Sei lá do meu coração! Ele é e sempre foi tão imprevisível... Porém não mais do que você. Talvez tenha sido este o maior motivo do efeito que você causou (causa) sobre mim. Todo mundo gosta de chocolate meio-amargo... Só que eu sempre gostei do mais doce e você tinha cobertura de açúcar cristalizado. Mistério doce, doce e puro. Eu nunca consegui te desvendar sequer por metade, quem dirá por inteiro. Você sempre me falou que não conseguia ser comigo o que era com o resto das pessoas, mas nunca me contou quem era você. Qual é o seu segredo? Do que você tem medo? Não sou nenhum brinquedo que pode se quebrar! Medo de me machucar? Eu me transformei numa espécie de vidro temperado: Difícil de se quebrar e quando se quebra não sai espalhando cacos por aí, não fere mais ninguém. Optei por ser assim, meu bem. Por mim, optei ser assim. Talvez dentre tantos, meu maior erro foi ser sensível demais a você, coração demais pra você. Talvez o seu maior erro foi ter temido me machucar, ter temido arranhar minha pele com seus toques um tanto quanto ásperos. Eles não eram ásperos para mim, eram milhares de pedrinhas de açúcar, eram grãos de areia que com sua meiga aspereza me traziam paz. Meu amor, eu quero brincar de esconde-esconde com você, quero achar teus esconderijos e quero de vez em quando perder pra você somente para conservar esses teus mistérios que tanto me fascinam. Quero que você me conte algum deles de vez em quando, quero que me deixe aprender sobre eles sozinha também. Para isso preciso te ter aqui, pois não podemos brincar por telepatia. Quero correr ao teu lado, tentar te ultrapassar e por vezes te deixar chegar primeiro. Quero bater numa parede qualquer e gritar ACHEI! Teu amigo me deu este endereço e eu te achei mesmo primeiro, um a zero para mim. Só quero que responda a esta carta ao endereço escrito no envelope ou bata em minha porta seja lá qual for a hora. Quero que me ache para que seja a minha vez de procurar. Me deixa te achar? Me deixar te reencontrar? Me deixa te amar


Te aguardo para um beijo, um abraço e um café. Sempre sua, Angelina.