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Pretérito.




Estava com uns nós na garganta e tinha a impressão de estar sendo enforcada. Estava com umas lágrimas nos olhos e tinha a impressão de que estava chovendo dentro de mim. Uma tempestade de lembranças e dores que compunham uma coreografia triste em meio à escuridão. Discretamente fui ao banheiro e abri depressa minha bolsa, precisava retocar a maquiagem. Olhei no espelho e vi uma garota linda, linda e triste, sempre atriz. Menina boba, sempre fingindo ser feliz. Passei a mão pelos cabelos, respirei fundo e novamente olhei meu reflexo a fim de perguntar a mim mesma se estaria pronta para o que me esperava naquele salão. Saí dando passos firmes, com a cabeça erguida. Ele estava lá, sentado em seu lugar, taça na mão. Ao seu lado, os mesmo amigos, os nossos amigos. Os rapazes me viram e um deles acenou me chamando, pedindo para que me aproximasse. E lá fui eu com passos não tão firmes quanto antes, com as mãos trêmulas, a garganta seca e o coração vazio. Ou não. Sorri, cumprimentei a todos, inclusive a ele. Coitado, boquiaberto. Só ali pude crer nas palavras que ouvi durante toda a noite... Eu estava linda. 
- Você está diferente, mais linda do que nunca. 
Sorri agradecendo e fui convidada para sentar. Que constrangimento... Eu estava louca para sair correndo dali, mas já havia fugido demais. Para a surpresa de todos peguei uma taça de vinho diretamente da bandeja do garçom que passava na hora e sentei. 
- Então, há tempos quero conversar contigo.
- Fale-me agora, estou no 'modo paciência'.
Aproximando-se de meu ouvido, cochichou:
- Não aqui. Vamos para um lugar mais discreto, para que possamos ficar à vontade mesmo.
Não contive o riso.
- Você realmente não perde o senso humorístico.
- Já foram algumas taças de vinho, você sabe. 
- Sei sim. 
- Ao menos você continua me achando engraçado. É um começo.
- Nós começamos há algum tempo.
- Encaremos como um novo início.
- Querido, dou risadas indo ao circo, acho palhaços engraçados e não inicio nada com eles.
Todos na mesa me olharam naquele instante espantados com a resposta saída de minha boca.
- Modo impaciência ativado. - Sorri sarcasticamente - Não foi apenas a minha aparência que mudou. Com licença, senhores. - E levantei. 
Tudo doía, dos pés à cabeça, tudo doía. Só que a dor maior estava na parte de cima, especificamente entre o queixo e o estômago ela era insuportável. E eu que pensei ter o coração vazio... Cumprimentei mais algumas pessoas, esperei um tempo e fui novamente ao banheiro. Não sabia como conseguira dizer aquilo, como conseguira agir daquela maneira, mas estava orgulhosa de mim mesma. Joguei a cabeça para trás querendo fazer com que aquelas malditas lágrimas entrassem novamente em meus olhos e respirei fundo outra vez. Sorri forçadamente, mas sorri. Dei a mim mesma o melhor sorriso que pude para voltar àquele salão e brilhar por mais que minha vontade fosse de voltar pra casa e dormir. A madrugada deu o ar da graça e eu continuava lá. No carro à caminho de casa eu chorei, mas ele nunca soube e nunca saberá e isso é o que me basta. Se for pra ser frágil e chorona, que seja somente para mim mesma ou para o travesseiro.
Passaram algumas semanas e quanto mais tempo ficava sem pensar nele, mais a dor ia sendo esquecida, mais distante o sentimento ficava da superfície do meu peito. Ele ainda existia dentro de mim, certamente, mas a saudade com o passar dos dias ia sendo substituída por outra palavra: passado



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