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As cartas de Anne Frank.



Os dias passavam com uma lentidão angustiante. Ela se apegava aos poucos livros, aos poucos amigos, ao seu travesseiro azul-cor-de-lágrima, aos pais e - principalmente - àquela carta cheia de letras bonitas, aquela carta que tinha o selo verde, como a esperança. A menina era a única ali que de vez em quando conseguia sonhar, vez em quando imagens doces, cenas de reencontro, substituíam os pesadelos carregados de medo, dor e morte. Ela tentava procurar em seus sonhos, em sua carta e em seu travesseiro motivos para continuar a sorrir. Os últimos dias estavam quase insuportáveis, muito mais difíceis e longos que os dias comuns. Sua irmã já lhe chamara a atenção, ela andava distraída demais nos afazeres do escritório, demorando demais na leitura, escrevendo pouco. A menina tinha diários, sim, mais de um confidente. Em um ela narrava o dia-a-dia no complexo, as dificuldades, falava da racionadíssima comida, dos inconvenientes companheiros e de sua revolta contra Hitler. No outro, ela escrevia cartas que tinham apenas um destinatário. Anne Frank, poucos sabem, tinha um amor. Suas palavras eram pontuadas com lágrimas, havia borrões por toda a parte. Que poderia fazer uma jovem judia apaixonada por um rapaz de sangue alemão, senão chorar? Fora seu pai, ninguém desconfiava de nada. A menina escondia-se, noite sim, noite não, levantava da cama com cuidado e escrevia por horas seguidas, até onde seus olhos aguentavam. 


"Sonhei conosco esta noite, Peter. Eu ouvia um barulho vindo dos fundos do complexo e me assustava, pensava que eram eles. Por algum motivo eu procurava papai e não o encontrava. Nem a ele, nem a ninguém. Eu ficava nervosa e corria para pegar meu travesseiro e sua carta. Arrancava fora a parte em que estava escrito o seu nome para que ao lê-la, eles não o castigassem também. Eu ficava de olhos fechados, escutava a porta abrir e os passos lentos a se aproximarem, estranhamente calmos. "Levem-me logo, me matem logo, não quero sofrer por tempo demais", pensei enquanto esperava. Uma mão áspera roçou em meu ombro e sorri antes mesmo de abrir os olhos. Não esquecera seu toque, não esqueceria nunca! Então eu acordei."

Enquanto as bombas destruíam vidas e levantavam poeira lá fora, Anne se perguntava se assim como ela, ele também escapara. As coisas estavam ficando fora do controle da Alemanha e enquanto os judeus eram encaminhados para os campos e viam o que restava de sua dignidade - literalmente - evaporar, soldados alemães eram mortos em combate, as cidades estavam indo ao chão. Peter não lhe enviara nenhuma carta fora aquela e isso a preocupava. Anne se questionava todos os dias o porquê daquilo tudo estar acontecendo. Não bastava ter sangue judaico? Não era azar demais? Isso era o de menos, ela não sentia culpa por isso, não havia sido ela a escolher nascer naquela família e com aqueles genes. O que maltratava o coração daquela menina era não ter evitado enquanto aquilo poderia ser indolor. Não ter parado enquanto podia, ter dado a cara à tapa e entregado de bandeja seu coração para aquele moço de olhos claros e cabelos louros, ter-se permitido apaixonar por um alemão, era o que a matava de culpa. Ela devia odiá-lo, como odiava a maioria, mas ele tinha um coração enorme como o dela, podia arriscar dizer que o músculo presente no peito de ambos, era maior que o fêmur de cada um. Ele sabia de tudo, ela confiava nele e em cada uma de suas palavras, em cada promessa e em cada sonho de um futuro bom. E foi por causa de um amor incondicional, que o mundo acabou para Anne Frank. 


Não foi por mal, de maneira alguma, não foi por mal. Assim como em Anne, em Peter também doía. Havia o peso da culpa imposto por toda uma nação sobre suas costas. Havia o peso de um amor proibido que levantava e abaixava a cada pulsação de seu peito. Certa noite, enquanto descansava após dias de confronto junto aos muitos colegas de alojamento, o rapaz se embriagou. Peter começou a chorar e sem se controlar, acabou contando tudo o que sabia. Ele não tinha noção do que estava fazendo, não estava habituado ao álcool devido sua pouca idade. Um de seus colegas, o maior defensor do Führer no alojamento, um dos poucos que ainda sentia prazer em estar ali, ouviu tudo e denunciou. Peter falara também das cartas escritas e não enviadas à sua amada. Envelopes com endereço e nomes, serviram de prova. Quatro dias depois do ocorrido no alojamento 322, após ser torturado e ameaçado, Peter foi obrigado a ir junto aos homens de uniforme e suástica ao complexo onde Anne estava escondida. Foram um, dois, três toques na porta da frente. A secretária que trabalhava na fábrica cujo porão era um refúgio judaico, não teve tempo de abrir a porta. "Heil Hitler", disseram. Sem uma palavra a mais eles saíram abrindo todas as portas e arrastando pelos braços um jovem de rosto bonito e machucado, cujo coração estava completamente dilacerado.

No porão todos escutavam passos e ficavam inquietos. Portas abriam e fechavam e os soldados arianos nada encontravam. Avistaram a última porta e um soldado sorriu para o outro, depois apontou com o rosto para Peter. O traidor foi instruído a entrar sozinho. E entrou. Anne soltou o travesseiro e a mão de sua irmã para correr ao encontro dele, que não conseguia balbuciar uma palavrinha sequer enquanto seus olhos viravam cachoeiras. Anne não conseguia entender por qual motivo Peter não se mexia enquanto ela o beijava. 
- Desculpe, Anne. Por Deus, me desculpe.
Do que está falando? Como chegou aqui? Você está vivo! Peter! - disse ela puxando-o pra mais perto. Ele não respondeu.

Os homens entraram, puxaram o rapaz cuja face transpirava medo pelos cabelos e na frente de todos ali, o chicotearam. A menina chorava enquanto via o sangue escorrer pelo peito que abrigava o melhor coração que já conhecera, presenciou os últimos suspiros de seu amado e foi impossibilitada de tocá-lo. Ela e os judeus ali abrigados, foram levados e tiveram o mesmo destino de todos os outros de sangue impuro. Os alemães que compactuaram com tudo, todos que trabalhavam no escritório, também foram castigados. 

E foi por causa de um amor incondicional descrito e expresso em cartas, que Anne morreu e matou as pessoas que mais amava.


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Nunca falei aqui, mas amo histórias narradas na segunda guerra, na Alemanha de Hitler. Super indico os livros "O diário de Anne Frank", "O menino do pijama listrado" e "A menina que roubava livros". Me inspirei nessas três histórias lindas e tristes para escrever esse texto, principalmente na primeira citada. Desculpem-me pelo tamanho do texto, mas não pude me conter. E por favor, só comente se realmente tiver lido. Um beijo.


Te espero.



Eu não queria mudar e caso isso não acontecesse, eu sabia que aquilo nunca teria um fim... 

Ao forçar um sorriso de bom dia para o mundo que me rodeava, notei rapidamente a necessidade que tinha de ficar sozinha. Evitei o máximo de olhares que pude e voltei ao meu quarto. Logo depois vieram em forma de flashes os sonhos da noite anterior. Compreendi que o que eu verdadeiramente queria e precisava, não era ficar sozinha. Mais do que em qualquer outro dia eu sentia a sua falta e como te ter não era possível, o que restava era tentar me isolar de um universo em que você não se fazia presente.
Assim como eu (meu orgulho e minha tão grande força), tudo ao meu redor era contraditório. Bem à minha frente estava um quadro na parede, um reflexo meu. A garotinha tinha pele clara, cabelos castanhos partidos ao meio e olhos... Sabe, olhos de quem acabou de chorar. À minha esquerda, outro quadro. Mesma moldura e mesma menina. Agora ela tinha em mãos uma flor amarela e na cabeça um chapéu também com flores. 
Dei-me conta que havia passado toda minha infância enganada, vendo grande diferença onde não havia uma mínima alteração de contraste. 
    Achei durante muito tempo que o que diferenciava as duas pinturas era que em uma estava uma menina triste e em outra, uma menina feliz. Uma menina pobre e outra rica. Não! Elas não eram irmãs gêmeas separadas na maternidade, elas eram metades de um só ser. A menina com flores carregava nos lábios um sorriso, mas não era possível atribuir à ele a palavra felicidade. Ela tinha melhores roupas e um chapéu bem bonito, mas seus olhos eram os mesmos. A garota à minha esquerda era o que as pessoas enxergavam ao me ver. O significado de seu leve sorriso ninguém jamais entenderia. 
Na mesinha, à direita da cama estavam dois livros, ambos tinham me salvado do tédio como uma boia salva uma criança que ainda não aprendeu a nadar. Um deles tinha a capa preta e o outro a capa branca. Uma brisa entrou pela janela me trazendo alívio ao ver que o livro de capa branca tinha mais páginas, era bem mais  pesado. 
Mantive-me distraída por um bom tempo, mas as lembranças vieram. Inevitáveis. Você também tinha suas contradições e ao mesmo tempo em que me convidava para fazer planos de um futuro bom, me alertava para que estivesse pronta para a partida. 
Agora dói, está doendo e por mais que isso que não me sirva de consolo, eu sei que vai passar. Tudo passa. O tempo - mesmo que contra todas as nossas vontades - passa. As pessoas passam e nos obrigam a abir caminho para que antigos sentimentos morram. A dor se vai e quando não se vai, se esconde. O choro cessa. 
Na parede em frente à minha cama num dia frio, talvez eu ainda veja um reflexo de mim com um olhar triste e um cabelo sem graça partido ao meio. Só que depois eu vou levantar da cama e sair do quarto, vou olhar pro quadro à minha esquerda, abrir um sorriso e sair na rua. Se meus olhos parecerem tristes, como o previsto, eu curvo os cílios e ponho uma sombra bem colorida, jogo meu chapéu ao vento, ponho a flor amarela atrás da orelha e vou tentar sobreviver a tudo de triste e nostálgico que me espera lá fora.
Te juro que espero de todo o coração poder tropeçar numa pedra e cair novamente em teus braços, mas não posso apenas esperar. Não posso viver num luto que nem deveria existir. Você não morreu em mim e por mais que todas as partes de meu corpo e de minha alma doam a ponto de se contorcer com a canção de ninar, eu tenho que te deixar adormecer aqui dentro. O livro de capa branca é mais pesado que o de capa negra e toda essa luz que ele transmite, me traz paz.
Agora eu vou viver e aceitar o fato de não poder caminhar com você. Vou tentar viver sorrindo, com os pés no chão firme, com o pensamento positivo e a esperança de que no futuro haja um "nós". Sorrindo e com a esperança de que na próxima esquina eu possa te encontrar e ver um sorriso florescer em teu rosto ao ver sair de meus lábios palavras doces compondo frases como "senti sua falta" e "eu amo você". 
Agora fecho os olhos, contenho as lágrimas e imagino estar te abraçando. Lembro da sua voz doce me dizendo que tudo tornará ao seu devido lugar.

Te espero
Sempre sua, Angelina.




Crescer dói.



Eu não consigo entender mais nada. Nadinha, nadinha. Eles falam que eu tenho que crescer, que já está na hora de agir como gente grande, mas eles me amedrontam o tempo inteiro. Eles me fazem promessas e ao mesmo tempo pedem que eu não acredite em nenhuma delas, porque eles não querem me decepcionar. Eles falam que a dor faz a gente ser mais forte, que um dia os cortes viram cicatrizes e fazem delas mais uma marca de maturidade. Eu sei de tudo isso, não preciso que me digam, porque aprendi com a vida e sei que cada bofetada que levei na face fez com que ela ficasse mais rígida e cada vez menos expressiva. Meu rosto aprendeu a esconder meus sentimentos e agora, quase involuntariamente, um sorriso aparece nele por cada lágrima presa nos olhos. Eles não compreendem que eu preferiria mil vezes não saber de tudo o que sei e ter de volta toda a minha inocência, só pra tirar de mim todas as marcas de um passado tão recente. Porque eu sei que minha dor é ímpar, porque eu sei o quanto ela é devastadora quando estou na escuridão do meu quarto, no elevador do meu prédio, no ônibus e em todos os outros lugares em que fico sozinha. A conversão de meu choro em risadas também os enganou e eu não os culpo. Fui eu quem quis assim, não posso querer que eles enxerguem o que eu escondo tão perfeitamente bem. Alguns agregam à mim, a imagem de uma pessoa forte, uma muralha. Mas é disfarce, tudo disfarce, sou fraca, sou fraca! Forte seria se fosse capaz de mostrar minha fragilidade, se fosse capaz de expor a um amigo as minhas lágrimas, se desse a cara à tapa e parasse de camuflar sentimentos em cima de personagens e mais personagens. Mas eu tenho medo. Sou covarde. Afasto os que são capazes de me tirar da fantasia. Afasto sempre porque no final todos vão embora, porque as pessoas mais dignas de meu amor, sempre tem de ir. Sempre tem algo que quebra, desencaixa e não volta ao lugar. Eu quero correr sempre de mim mesma, quero correr sempre do que me faz completa. Amedronta. Amor demais me amedronta. Me faz ter vontade de sair pela porta e não voltar nunca mais. Se eu não for magoada, magoarei alguém com esse meu orgulho imbecil. Eu não sei, mas preciso, meu rosto precisa respirar sem essa maquiagem. Eu quero o ombro que aconchegou minhas lágrimas, a mão que eu pedia a benção e segurava a minha quando eu tinha pesadelos. Eu quero conseguir continuar sem ferir ninguém, sem me ferir. Não sei se quero crescer agora, porque crescer exige coragem. Pra crescer mais, temos que cair mais também. Já vivi, caí e cresci o suficiente pra saber que cair dói. Crescer dói. 





No fim de tudo é só saudade.


Pensei que seria apenas mais um dia, mas naquela tarde de segunda-feira tudo estava pior do que o normal. Pensei que levantaria da cama com o coração doendo e os olhos inchados, comeria alguma coisa e deitaria no sofá para assistir tv até adormecer. Minha rotina era sempre essa desde o dia em que ele partiu. Não, tudo era diferente, tudo mesmo. Eu estava cansada da televisão e de dar audiência a programinhas fúteis, não estava com nenhum pingo de fome e meus olhos lacrimejavam mais que o habitual. Reli aquela bendita carta pela milionésima vez e fui lavar o rosto. Vi meu semblante completamente abatido, fechei os olhos num suspiro e ao abri-los dei de cara com uma nova imagem: Éramos nós que estávamos lá. No espelho um fraco reflexo de um amor que saiu pela porta, porém nunca se foi. Chorei silenciosamente por minutos seguidos e a cada vez que abria e fechava os olhos, o mundo girava e a cena mudava. Por um momento pensei estar num sonho, mas era real demais e estava doendo demais para que eu não estivesse acordada. Eu poderia até estar louca, de fato, mas dormindo é que eu não estava. Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali, mas aquela era a primeira vez que eu o via. Dane-se se era delírio e se me machucava, eu o tinha e naquele momento ele era apenas meu. Comecei a ouvir vozes, imaginar mais um diálogo entre nós. Quando nossos lábios se tocaram, pude sentir o efervescer de meu corpo e então sorri, mesmo que chorando. Ele levou malas cheias de roupa, levou os porta-retratos, mas continua em meu peito e as paredes do nosso quarto ainda são testemunhas do nosso amor. O sentimento ficou, ficou o silêncio, ficaram vários nós, vários pontos de interrogação. De repente o ouvi dizer que ia embora, que eu o conhecia e que tinha sido erro meu acreditar que ficaria para sempre. Lavei o rosto novamente e ao olhar no espelho ele tinha ido junto às lágrimas. Respirei fundo e conscientizei-me de minha parcela de culpa em toda a situação, pois ele nunca me iludira em relação ao seu tempo de estadia e uma hora ele partiria, mesmo dizendo que me amava. Prometi a mim mesma sair daquela situação, percebi que não havia nada de tão diferente naquele dia, foram só algumas doses a mais de saudade e eu teria de agüentar, passar por cima daquilo e viver.