Páginas

Te espero.



Eu não queria mudar e caso isso não acontecesse, eu sabia que aquilo nunca teria um fim... 

Ao forçar um sorriso de bom dia para o mundo que me rodeava, notei rapidamente a necessidade que tinha de ficar sozinha. Evitei o máximo de olhares que pude e voltei ao meu quarto. Logo depois vieram em forma de flashes os sonhos da noite anterior. Compreendi que o que eu verdadeiramente queria e precisava, não era ficar sozinha. Mais do que em qualquer outro dia eu sentia a sua falta e como te ter não era possível, o que restava era tentar me isolar de um universo em que você não se fazia presente.
Assim como eu (meu orgulho e minha tão grande força), tudo ao meu redor era contraditório. Bem à minha frente estava um quadro na parede, um reflexo meu. A garotinha tinha pele clara, cabelos castanhos partidos ao meio e olhos... Sabe, olhos de quem acabou de chorar. À minha esquerda, outro quadro. Mesma moldura e mesma menina. Agora ela tinha em mãos uma flor amarela e na cabeça um chapéu também com flores. 
Dei-me conta que havia passado toda minha infância enganada, vendo grande diferença onde não havia uma mínima alteração de contraste. 
    Achei durante muito tempo que o que diferenciava as duas pinturas era que em uma estava uma menina triste e em outra, uma menina feliz. Uma menina pobre e outra rica. Não! Elas não eram irmãs gêmeas separadas na maternidade, elas eram metades de um só ser. A menina com flores carregava nos lábios um sorriso, mas não era possível atribuir à ele a palavra felicidade. Ela tinha melhores roupas e um chapéu bem bonito, mas seus olhos eram os mesmos. A garota à minha esquerda era o que as pessoas enxergavam ao me ver. O significado de seu leve sorriso ninguém jamais entenderia. 
Na mesinha, à direita da cama estavam dois livros, ambos tinham me salvado do tédio como uma boia salva uma criança que ainda não aprendeu a nadar. Um deles tinha a capa preta e o outro a capa branca. Uma brisa entrou pela janela me trazendo alívio ao ver que o livro de capa branca tinha mais páginas, era bem mais  pesado. 
Mantive-me distraída por um bom tempo, mas as lembranças vieram. Inevitáveis. Você também tinha suas contradições e ao mesmo tempo em que me convidava para fazer planos de um futuro bom, me alertava para que estivesse pronta para a partida. 
Agora dói, está doendo e por mais que isso que não me sirva de consolo, eu sei que vai passar. Tudo passa. O tempo - mesmo que contra todas as nossas vontades - passa. As pessoas passam e nos obrigam a abir caminho para que antigos sentimentos morram. A dor se vai e quando não se vai, se esconde. O choro cessa. 
Na parede em frente à minha cama num dia frio, talvez eu ainda veja um reflexo de mim com um olhar triste e um cabelo sem graça partido ao meio. Só que depois eu vou levantar da cama e sair do quarto, vou olhar pro quadro à minha esquerda, abrir um sorriso e sair na rua. Se meus olhos parecerem tristes, como o previsto, eu curvo os cílios e ponho uma sombra bem colorida, jogo meu chapéu ao vento, ponho a flor amarela atrás da orelha e vou tentar sobreviver a tudo de triste e nostálgico que me espera lá fora.
Te juro que espero de todo o coração poder tropeçar numa pedra e cair novamente em teus braços, mas não posso apenas esperar. Não posso viver num luto que nem deveria existir. Você não morreu em mim e por mais que todas as partes de meu corpo e de minha alma doam a ponto de se contorcer com a canção de ninar, eu tenho que te deixar adormecer aqui dentro. O livro de capa branca é mais pesado que o de capa negra e toda essa luz que ele transmite, me traz paz.
Agora eu vou viver e aceitar o fato de não poder caminhar com você. Vou tentar viver sorrindo, com os pés no chão firme, com o pensamento positivo e a esperança de que no futuro haja um "nós". Sorrindo e com a esperança de que na próxima esquina eu possa te encontrar e ver um sorriso florescer em teu rosto ao ver sair de meus lábios palavras doces compondo frases como "senti sua falta" e "eu amo você". 
Agora fecho os olhos, contenho as lágrimas e imagino estar te abraçando. Lembro da sua voz doce me dizendo que tudo tornará ao seu devido lugar.

Te espero
Sempre sua, Angelina.




10 colecionadores!:

  1. Sentimentos... Entendo perfeitamente como é lidar com esse turbilhão... Com todos as coisas que gostaríamos que fosse e não é, não existe!
    Gostei do texto.

    ResponderExcluir
  2. texto lindo.
    ás vezes devemos "curtir" nossa dor. Senti-la bem fundo na pele para somente depois tentarmos aniquila-la. Acho que negá-la logo de cara é pior, porque depois que todas as pessoas se vão e retiramos nossa máscara vemos que o que sobrou foi apenas um olhar triste.
    Acho que Angelina deveria esperança de encontrar a si mesma na próxima esquina...talvez assim ela possa encontrar seu amado e será surpreendente.
    Parabés guria, muito,muito,muito sucesso e histórias para nos envolver. Beijão.;

    ResponderExcluir
  3. que liiiiiiiiiiiiiiiiiiiindo texto! parabéns!
    a dor pode ser um sentimento terrível, mas se faz necessário muitas vezes até mesmo pra gnt refletir sobre o que somos, como agimos e o que esperamos.
    sucesso no seu blog :}

    ResponderExcluir
  4. Nossa Railma fiquei comovido com este texto.
    Quantas pessoas passam por isso quando se deparam com a morte de alguém querido ou ainda com as histórias banais de amor. Enfim, você foi tão profundo que fiquei meio sem norte quando terminei de ler.
    Tentei achar uma frase que valasse grifar, mas percebi que (na mente) grifei todo ele. #10

    ResponderExcluir
  5. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  6. Me identifiquei tanto...
    É isso que eu estou tentando fazer no momento, deixar o coração machucado, num cantinho esquecido, botar um sorriso no rosto e esperar que o mundo gire. Cada coisa vai pro seu devido lugar na hora certa.

    ResponderExcluir
  7. "A menina com flores carregava nos lábios um sorriso, mas não era possível atribuir à ele a palavra felicidade."
    Achei isso tão parecido com a minha eu de uns meses atrás. O bom é que no momento certo tudo se ajeita.
    Aprendemos que somos capazes de suportar mais uns golpes da vida e sermos felizes depois.
    :*

    ResponderExcluir
  8. Que linda!
    Me identifiquei bastante com o seu texto. Escreve super bem viu? Virei fã e já estou te seguindo. Beijinhos!

    ResponderExcluir
  9. Oi,
    tem selinho no blog pra você.
    http://iasmincruz.blogspot.com/2011/08/selo-150-seguidores.html#comments

    ResponderExcluir
  10. Adorei seeu blog.
    Já me tornei uma seguidora!!
    ...
    http://deixa-me-ser-entao.blogspot.com/

    ...
    Beiijos, bom fim de semana! :D

    ResponderExcluir