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O músculo mais forte do nosso corpo.

Já faziam anos e durante boa parte deles havia perdido seu tempo culpando-se. Ela lhe estalou um beijo na testa, apertou com toda a força que tinha e que era pouca comparada à dele, as grandes e nada delicadas mãos contra seu peito, deu-lhe um sorriso melancólico com ar de ''sinto muito'' e partiu sem dar demais explicações. Com um aperto no peito ele sentiu que seria a última vez que a veria e mesmo diante de tal situação, o orgulho impediu que fizesse algo. Por necessidade passou a odiá-la, chegou sozinho à conclusão de que seu coração definharia caso permanecesse sustentando aquele amor. De fato estava certo, porém sofreu por tempo demais e aquele ''músculo idiota'', como gostava de chamar, não era como antigamente. Interrompendo esse pensamento, recordava da voz que dizia que o coração é o músculo mais forte do nosso corpo. Deixou de ter autopiedade e por amor próprio tornou a ser um homem frio. Foi o dominador de todos os seus relacionamentos posteriores, que acabavam pela sua incapacidade de dizer o que sentia. Sentia falta por alguns dias, depois esquecia de cada mulher que passara pela sua vida e fora embora. Exceto, é claro, Dela. Havia se habituado à solidão e não fazia esforços para mudar. Escancarar sentimentos e dizer belas palavras não seria a solução, pois já havia experimentado fazer isso e somente Deus, caso existisse, saberia o quanto aquilo lhe fizera mal. Um filme contendo todas as lembranças boas e ruins passou em sua mente naqueles dois segundos em que olhava a folha depois de lida.


Amassou o papel e os seus olhos se encheram de lágrimasE aquela foi a primeira vez em que chorou por uma mulher. Guardou a pequena bola branca no bolso e sentiu-se irritado pela forma que ela ainda o conhecia. Por mais alguns segundos odiou aquela mulher com todas as suas forças. Depois veio o peso da preocupação, ela estava doente. "Esteve, no passado, ela falou que esteve, seu idiota!", corrigiu-se. Passou a mão pelos cabelos num ato de desespero, viu seu reflexo decadente nas cinqüenta polegadas da tv desligada e contra seu próprio orgulho percebeu o quanto a amava cinqüenta polegadas a mais do que a odiava. Era uma cartinha sem endereço, sem selo do correio. Provavelmente tinha sido jogada pelo buraco da porta por ela mesma. Estremeceu ao pensar que ela havia estado ali. Tirou do bolso o papel, desamarrotou e o apertou contra o peito do mesmo modo que fizera a mulher que ele mais amou cinco anos antes com suas mãos. Quinze minutos depois estava batendo na porta da casa dela com um lírio na mão direita e o coração na esquerda. A maçaneta girou, a porta abriu e atrás dela uma mulher completamente careca sorriu com os olhos marejados. Após um minuto inteiro que passaram se olhando, ela foi a primeira a falar. 
- Eu sabia que você viria.
- O coração é o músculo mais forte do nosso corpo, lembra? 


"Este amor que é
o túmulo onde jaz meu
corpo para sempre sepultado." (Vinícius de Moraes)




Dois R e uma dor.



As pessoas te olham, estão ao teu lado, por vezes te amam, mas não te conhecem. Tantas vezes a gente tem que ouvir e por amor, nada falar. A gente tem que aprender a perdoar, aprender que eles não são como nós e nem sempre têm esse olhar tão perspicaz sobre tudo, sobre o mundo. A gente tem que aprender a lidar com crises, superar os medos sem se deixar abater tanto... A gente tem que ver que ninguém morre de amor aos quinze anos de idade. O seu namoro acabou e tem gente esperando numa fila por um transplante, gente esperando pela morte numa fileira de macas no corredor de um hospital superlotado. Você enfrenta filas pra tudo nessa vida, a fila do amor-sincero-que-dura-eternamente é bastante grande. Espera. A gente tem que aprender a se livrar do que é banal, do que não te acrescenta, só diminui. Do beijo do cara bonitão que não te liga no dia seguinte e te deixa uma semana se sentindo um lixo, incompleta. A gente tem que aprender, por Deus, que quantidade não é qualidade. Tem que ter amor próprio, tem que aprender a conter o choro, tem que saber em quem confiar. A gente tem que largar mão de toda essa alienação, pensar com a própria cabeça, tem que voar com os pés no chão. Sabe o que é pior? Tem gente que julga muito a gente por não sermos nós os heróis a conseguirmos cumprir tantos ditos, conseguirmos concretizar tantos planos. E eu escrevo e releio mil vezes, tentando convencer a mim mesma que conseguirei. E repito mais mil vezes pro meu reflexo no espelho que não vou me apegar tanto, que vou me importar menos, que vou segurar a barra e todas as lágrimas. E eu consigo, minha superfície permanece intacta. Meu coração, em contrapartida, entra num processo de autodestruição. E dói ver que o passado me atormenta novamente, dói demais reviver tudo de ruim que outrora por pouco não fez de mim um pó. Dói fingir que estou bem por ser minha a função de bancar a muralha protetora. Sabe um muro de uma casa, dos mais altos, cheios de arames farpados? Ele protege os outros enquanto agüenta sol, chuva, pragas... É mais ou menos assim que eu me sinto. Sou forte, mas o reboco tá descascando, alguns tijolos estão caindo e ao mesmo tempo em que sinto que estou pendendo e indo ao chão, preocupo-me demasiadamente em saber em que lado cairei, a que pessoas machucarei.  E eu não consigo não ser assim. Por mais que eu saiba que é idiotice ser coração demais e até te diga que amor-próprio não é sinônimo de egoísmo, eu sempre vou pensar em alguém antes de mim (e te juro, não falo aqui de nenhum amor platônico). Porque eu me conheço e sei mais do que ninguém que para mim, maior que a dor da minha queda é a partitura de um coração que reciprocamente me ama. Aí eu olho pro espelho e insisto dizendo que tudo vai passar, que a paz tornará a reinar. Aí eu lembro das filas, da espera angustiante e ponho em mente a ideia de que o sol vai voltar e uma luz lá de cima me iluminará. Eu queria que fosse só mais uma parte de um dos pesadelos que constantemente têm atormentado as minhas noites, mas tudo isso pode ser resumido em duas palavras: ruim, realidade.  


"Invernos, impérios, mistérios, lembranças, cobranças, vinganças... Assim como a dor que fere o peito isso vai passar também."