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Dois R e uma dor.



As pessoas te olham, estão ao teu lado, por vezes te amam, mas não te conhecem. Tantas vezes a gente tem que ouvir e por amor, nada falar. A gente tem que aprender a perdoar, aprender que eles não são como nós e nem sempre têm esse olhar tão perspicaz sobre tudo, sobre o mundo. A gente tem que aprender a lidar com crises, superar os medos sem se deixar abater tanto... A gente tem que ver que ninguém morre de amor aos quinze anos de idade. O seu namoro acabou e tem gente esperando numa fila por um transplante, gente esperando pela morte numa fileira de macas no corredor de um hospital superlotado. Você enfrenta filas pra tudo nessa vida, a fila do amor-sincero-que-dura-eternamente é bastante grande. Espera. A gente tem que aprender a se livrar do que é banal, do que não te acrescenta, só diminui. Do beijo do cara bonitão que não te liga no dia seguinte e te deixa uma semana se sentindo um lixo, incompleta. A gente tem que aprender, por Deus, que quantidade não é qualidade. Tem que ter amor próprio, tem que aprender a conter o choro, tem que saber em quem confiar. A gente tem que largar mão de toda essa alienação, pensar com a própria cabeça, tem que voar com os pés no chão. Sabe o que é pior? Tem gente que julga muito a gente por não sermos nós os heróis a conseguirmos cumprir tantos ditos, conseguirmos concretizar tantos planos. E eu escrevo e releio mil vezes, tentando convencer a mim mesma que conseguirei. E repito mais mil vezes pro meu reflexo no espelho que não vou me apegar tanto, que vou me importar menos, que vou segurar a barra e todas as lágrimas. E eu consigo, minha superfície permanece intacta. Meu coração, em contrapartida, entra num processo de autodestruição. E dói ver que o passado me atormenta novamente, dói demais reviver tudo de ruim que outrora por pouco não fez de mim um pó. Dói fingir que estou bem por ser minha a função de bancar a muralha protetora. Sabe um muro de uma casa, dos mais altos, cheios de arames farpados? Ele protege os outros enquanto agüenta sol, chuva, pragas... É mais ou menos assim que eu me sinto. Sou forte, mas o reboco tá descascando, alguns tijolos estão caindo e ao mesmo tempo em que sinto que estou pendendo e indo ao chão, preocupo-me demasiadamente em saber em que lado cairei, a que pessoas machucarei.  E eu não consigo não ser assim. Por mais que eu saiba que é idiotice ser coração demais e até te diga que amor-próprio não é sinônimo de egoísmo, eu sempre vou pensar em alguém antes de mim (e te juro, não falo aqui de nenhum amor platônico). Porque eu me conheço e sei mais do que ninguém que para mim, maior que a dor da minha queda é a partitura de um coração que reciprocamente me ama. Aí eu olho pro espelho e insisto dizendo que tudo vai passar, que a paz tornará a reinar. Aí eu lembro das filas, da espera angustiante e ponho em mente a ideia de que o sol vai voltar e uma luz lá de cima me iluminará. Eu queria que fosse só mais uma parte de um dos pesadelos que constantemente têm atormentado as minhas noites, mas tudo isso pode ser resumido em duas palavras: ruim, realidade.  


"Invernos, impérios, mistérios, lembranças, cobranças, vinganças... Assim como a dor que fere o peito isso vai passar também."




17 colecionadores!:

  1. Que liindo esse texto:)
    Me identifiquei muito, porque muitas vezes protego quem amo e acabo deixando de me proeger.Sou coração também, mas coloquei na minha cabeça que para proteger quem amo, preciso estar forte. Para que quebrar um coração perfeitamente bom?
    Não é egoísmo não, é amor, seja próprio ou ao próximo.
    Adorei o blog, beiijos*-*

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  2. Que coisa mais linda esse texto, verdade. Por mais que tentemos ser egoístas e não nos importar com as pessoas, a gente se importa. E isso dói. Dói não conseguir ser suficientemente forte para tantas situações. Mas vou lhe contar um segredo: ao passo que nós nos achamos fracas às vezes, o mundo nos vê fortes e queria ser como nós. Suportamos mais do que conseguimos imaginar. Basta crer. Kisses.

    http://miasodre.blogspot.com/

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  3. Humm... bom texto. Belo blog, bem feito, organizado, muito bom! Te seguindo tb!
    http://critico-estado.blogspot.com

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  4. cara, quase chorei com seu texto
    pq eu tb vivo essa angústia, sabe de esperar um amor verdadeiro, e a solidão, a decepção, parece corroer meu coração. vou levar comigo essa idéia nova de fila, de que tudo na vida é uma espera
    enfim, querida, espero que nós tenhamos um final feliz, que vc tenha um grande amor, e que eu seja feliz também.


    http://diariodagarotadevariasfaces.blogspot.com/
    sigo quem me segue e retribuo comentários

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  5. Às vezes a realidade pode machucar mesmo. Nada como ter uma dor de cotovelo e desabafar um pouco. Achei seu texto forte e seco, decididamente agressivo e ao mesmo tempo sensível.

    http://duo-postal.blogspot.com

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  6. Muito bom seu texto e acho que é natural do ser humano proteger quem ama ,preferimos sofrer do que ver um amigo ,alguem da familia ,namorada sofrendo

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  7. Que coisa mais bonita Railma, cada vez mais me impressiono com seus textos.

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  8. Olá!
    Passei pra conhecer teu blog e adorei, seguindo *-*
    Também tenho um blog com textos meus, passa lá *-*
    http://maanuscritoo.blogspot.com/

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  9. Olá, muito legal seu blog!
    Seguindo, segue de volta e deixa seu comentário?
    Bjs

    http://odiariodaborboleta.blogspot.com/

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  10. Primeiro: A gente tem que ver que ninguém morre de amor aos quinze anos de idade.
    Aplausos pra você. Concordo com essa frase e as frases que seguiram essa e com o texto inteiro. Muita gente se importa muito com coisas banais e fecham os olhos para problemas de verdade. Um amigo meu, certo dia, reclamava da sua rotina de estudo, eu respondi sobre os problemas de saude de tantas pessoas, de tantas crianças nos hospitais, ele respondeu 'ao menos eles não precisam estudar' :D eu também não sei como não bati na hora.
    E segundo, adorei a sua metafora sobre o muro alto e você. Sou o muro da casa vizinha.

    Gostei muito daqui, tô te seguindo, você escreve bem

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  11. Poxa, que texto mais lindo. Me identifiquei em diversas partes dele, você consegue usar metáforas muito bem. Amei seu blog.

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  12. "E dói ver que o passado me atormenta novamente, dói demais reviver tudo de ruim que outrora por pouco não fez de mim um pó."
    Preciso dizer algo? É o que há em mim, todo este texto. A coisa do medo, da proteção, da muralha... Sei lá. Me vi.
    Lindo, lindo, lindo.

    Beijão.

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  13. Olá Railma,
    Em breve publicaremos sobre a Edição #palavrasavulsas, mas posso te adiantar que o conteúdo a ser abordado são textos. O que diferencia dos demais projetos é como queremos abordar os Blogueiros.
    E bem eu deixo a porta aberta pra você sempre. Estamos precisando de Administradores. Se estiver interessada, estamos aí!

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  14. E ah, só respondendo o seu comentário.
    Você disse "Eu já descobri um anjo dentro do coração de um Bad boy... Mas os riscos de encontrar um demônio são bem maiores." E é, talvez uma das coisas mais, hm, atraentes é isso neles, essa dúvida entre ser anjos magoados ou demonios.
    E que bom que você gostou de lá, pois eu adoro de verdade seu blog e suas escritas

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  15. Super concordo, não morremos de amor aos quinze anos de idade e por mais que tentemos ser egoistas, sempre pensamos em alguém antes da gente. E acho que temos que nos importar mais com os outros mesmo, pq o mundo ta cada vez mais egoista, e eu não acho isso legal. Sucesso gata :D

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  16. Oi,
    Achei seu blog em Gabi, ( Nova Perspectiva)
    E me deparei com esse texto, lindo, tocante e emocionante. Li e pensei: "Nossa, eu achei que a minha dor era a unica do mundo, mas vejo que tem gente que sente como eu!" Eu amei aqui, e achei esse lugar na hora certa.
    Estou a te seguir, a te contemplar.
    Beijos.

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  17. seguindo seu blog
    me segui tbm
    http://intensamenteamor.blogspot.com/
    bjuss

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