Páginas

Brincando de desapego.



Você tem batido demais em minha porta e a solidão que está sentada ao pé da cama me olha querendo indagar se é ou não chegada a hora de poder partir. Balanço a cabeça negativamente e peço que ela espere para tomar mais um café, afinal são eles que tem me mantido forte e acordada por todo esse tempo. O telefone toca até parar e você me deixa mais um recado. Saudade? Dói, tipo quando se rala o joelho. Sangra, fica o hematoma roxo e depois de uma semaninha vai embora. Tenho me controlado bem, já estou fadada de descascar feridas. Tenho tentado deixar que você escorra pelo ralo como as lágrimas que deixo escapar no banho, quero que você pegue o mesmo rumo que a água. Quero falar tudo que eu sinto para um ser que não seja inanimado, pra você de preferência, por isso estou me preparando. Quero ver até quando conseguirei te ouvir me chamar e continuar sem responder. Quero te dizer que ter passado tanto tempo guardando sentimento só me fez mal, que inúmeras vezes eu quis sorrir de volta e correr pra te abraçar. Isso de amar pra dentro não funciona, no final a gente só consegue se machucar. Retraí-me, engoli o choro e desfilei. Soltei a sua mão e segurei com todas as minhas forças as do orgulho. Você como num reflexo, reproduziu a mesma cena. Nós nos escondemos um do outro e quanto mais brincávamos de desapego, mais voltávamos ao mesmo lugar de sempre pra falar besteira, ouvir música e rir das tolices da vida e do destino. No fundo sabíamos perfeitamente que estávamos andando em círculos, dando um giro no planeta e se esbarrando novamente, tropeçando e caindo um nos braços do outro. Só que você me magoou demais com suas atitudes e eu te mostrei como podia manipular as palavras, o quão amargas e ferinas elas poderiam ser. Aí nos maldizemos por aí, afirmando a qualquer um que perguntasse que nunca tínhamos nos pertencido verdadeiramente, que tudo não passara de uma brincadeira que como todas as outras, perdera a graça. Desviamos olhares, redirecionamos sonhos e evitamos os mesmos caminhos. Agora você percebeu que nem toda garota tem a graça do mistério que eu tenho e que somente a beleza física não te atrai suficientemente. Você começou a cansar de todas as bonitinhas que diferentes de mim, satisfazem todos os teus desejos, então começou a valorizar a inteligência e a opinião própria. Você percebeu querido, que as garotas mais loucas que existem são as que ainda possuem juízo e não as que têm o cabelo colorido. E eu? Percebi que pra ser feliz só preciso de alguém que não me faça temer à vida mais do que à morte, percebi que - por mais que uma sensação horrível de desgosto invada meu peito todas as vezes que penso nisso - esse alguém não pode ser você.



"Eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas." (Caio Fernando Abreu)

Primeira pessoa do singular.



Os meus contos são quase em totalidade contados no espaço de tempo em que o nó continua preso na garganta, a lágrima presa no olho e as palavras são teletransportadas do coração para a mão. Dificilmente escrevo acerca do que sinto, mas na tristeza costumo inventar dores mais doídas que as minhas e assim, sem querer, faço também doer corações que se vêem refletidos na minha escrita, corações colecionados por alguém... Corações que milhares de vezes são postos, nada cuidadosamente, no fundo de uma caixa velha junto a outros cacos. Vez ou outra faço sorrir rostos que se encontram cada vez mais inexpressivos com um bocado de doces e finais felizes. Por hora, vejo apenas um rosto diferente na rua, no ônibus lotado ou um casal que chora e começo, desenfreadamente, a imaginar motivos e situações. Nas entrelinhas deixo escapar quem sou, o que sinto, o que acho e assim, silenciosamente eu te falo com paixão que já fui boba demais, já sofri por amor, já amadureci mais do que o suficiente pra uma garota que ainda vai fazer dezesseis. Eu te conto, mesmo que às vezes você não perceba, que eu tenho um medo absurdo de crescer e deixar que o que me resta dessa inocência doce se vá para sempre. Digo-te metaforicamente, querido leitor, que o músculo mais forte do nosso corpo é sim o coração e nem tente enganar-se e dizer que não. Não adianta fugir, nesse mundo absolutamente nada acaba bem e no fundo restará a saudade, pois no final da linha está a morte. A infância, o seu (e o meu) pai falecido, qualquer outro ente querido. Amizades que morrem ainda em vida e que nos lembram a cada segundo que o ''para sempre enquanto dure'' não é nada fácil de realizar. Como? Se não vou falar da morte de um antigo amor? Querido colecionador/colecionado, o amor verdadeiro não morre sequer com a morte, porque o amor não está em nenhuma parte do seu corpo. O amor permanece na alma e sempre estará contigo. Como você pode notar, da dor da ausência eu sei muito bem como falar. Sabe, eu já bebi saudade de domingo a domingo, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia. Deixei por muito tempo de pintar meu arco-íris diário e vivi em escala cinza. Quando acabou? Quando a lágrima enfim caiu e o orgulho foi pro espaço. Cansei de ficar prendendo lágrima, coisa de covarde. Coragem tem quem dá a cara à tapa, chora e não quer nem saber. Que se dane o mundo! Eu deixei de brincar de esconde-esconde, cansei de ver rostos virados e inclinados pra qualquer direção que não fosse a minha e hoje, posso te dizer, me sinto feliz. O quê? Não, não. Já falei o bastante e não obstante, um dia tornarei a falar. O silêncio não mais permanece, meus lábios estão lacrados, mas minhas mãos descrevem mil vezes melhor o que sinto. Sempre, sempre, com muita paixão