Páginas

Da vida, do destino.



Ele estava lá, como sempre esteve e jamais deixaria de estar. Ela continuava a mesma, com sua mania de importar-se demais e com todo aquele sentimento intacto. O travesseiro dele era coberto por ácaros pensantes... Seus sonhos mirabolantes grudavam naquela fronha e o nome dela estava por toda a parte. O travesseiro dela sentia frio, toda noite chovia e era salgado, corrosivo... Eram lágrimas, doíam demais. Havia outras garotas e outros garotos... Ela ouvia coisas sobre elas, mas quando o assunto era sobre eles o rumo da conversa mudava. Ele foi o primeiro a se apaixonar, ela a primeira a relutar... Ele não falou, ela não perguntou. Ele quis esquecer quando ela insistiu em lembrar. Dúvidas, muitas dúvidas. Tanto orgulho pra quê? Todo mundo sabia, eles negavam. Tanto medo pra quê? Pra não ter o coração partido, pra não sofrer, ninguém ali queria chorar. Pra quê? Pra quê? Corações foram partidos, dois pares de olhos regavam seus rostos. Ela decidiu ir, ficar ali só iria piorar... E buscava feições dele em qualquer cara que lhe desse um bom dia, ele procurava em todo mundo um sorriso mais bonito que o dela e tudo aquilo era vão. Como lidar com a ausência e a falta daqueles abraços? Pra onde correr quando o conforto só podia estar naquele colo, naqueles braços? Tentar ignorar era a única solução. Ele ergueu a cabeça, ela curvou o olhar, ele tomou o seu rumo e ela tomou todo o cuidado pra seguir o caminho oposto. Passaram anos, ele tornou-se um homem de negócios conhecido na alta sociedade, mais constante que as mulheres em sua vida era a solidão. Ela formou-se em psicologia, via magia em tentar entender cada comportamento, era lindo poder ajudar. Nos finais de semana cuidava de sua floricultura (puro hobby) e foi lá que o reencontrou, em um domingo nada movimentado enquanto lia pela enésima vez a antologia poética de Vinícius de Moraes. Não demoraram dois segundos para se reconhecerem e já sentiram os batimentos acelerarem. Eles se olharam nos olhos, mas não chegaram sequer a trocar um abraço ou a cumprimentar-se com dois beijinhos no rosto. Ele havia tornado-se um homem frio demais e o orgulho sempre foi uma característica forte na personalidade de ambos. Ele entrou pra comprar flores pra mãe, ela pensou que fosse pra namorada sem saber que ele queria que sua namorada fosse ela. Quando ele estava quase cruzando a portinha estreita de saída e ela já tinha voltado a ler seus poemas, ele hesitou. Voltou ao balcão, deu mais um sorriso, pôs em cima da mesa seu cartão com número o do telefone, arrancou o livro de suas mãos e colocou-o na posição correta de leitura. 

- Você lendo o livro de cabeça pra baixo e eu com medo de lhe entregar meu cartão. - Disse.
- É... Não mudamos nada mesmo. - Sorriram.

No outro domingo ele lhe trouxe uma fita cassete com poemas de Neruda e eles ouviram juntos. Seus amigos de farra começaram a chamá-lo de "seu babaca" e sua mãe de "filhinho", feliz da vida em ganhar flores toda semana.





Fobia.


Sim? Não? Sei não. Ou o meio termo, quem sabe... Não sou eu, eu não sei. É difícil escolher pra mim, não sou objetiva, sou pensante demais e tenho medo de tudo. Barata, trovão e daquele desenho... Ah, Caverna do dragão! Tenho medo porque aquilo é meu espelho, cara! Eu sempre me perco em mim, eu acho que consegui, eu acho que tô feliz e de repente o portal tão batalhado simplesmente fecha. Como pode? Será que não dá pra ficar aberto por tempo suficiente para que eu possa passar? O vingador na minha vida é o medo, sou pensante demais, tenho medo de tudo. Futuro, presente e até o que já passou. O que tem lá atrás me atormenta e temo que o que ainda está por vir seja só saudade, seja solidão. E quem quer isso? No final de tudo todo mundo quer um bom livro, uma música calma, no final todo mundo quer paixão. E adivinha só, eu morro de medo dessa tal paixão! Dizem que faz doer, que faz chorar e que pode ser a melhor coisa do mundo. É contraditório, detesto contradições. Eu choro de medo, dizem que paixão faz chorar... Isso tem alguma relação? Acho que estou ficando meio louca, estou me contradizendo, detesto contradições e não posso me detestar por isso, já detesto quase tudo. Tá vendo? É só falar de paixão que começo a falar mais besteira que o normal e falar sem parar e sem parar e sem par... Que sorriso você tem, hein? Fantástico. Sabe o que é engraçado? Quando você começa a falar de política e eu te interrompo pra falar que se continuar vou assistir novela, porque eu detesto política e você olha pra mim maroto e faz uma cara de "você não sabe das coisas". E eu não sei mesmo, de nada (mentira, sei da novela), porque tenho medo. Na verdade, acho que eu finjo não saber das coisas porque saber demais me dá medo e um pouco de ignorância não faz mal. Você sabe das coisas, não tenho muito o que ensinar a você. Só sei ter medo e escrever sobre o que tenho medo de viver. Você quer me ensinar a sentir, que audácia! Não dá, querido, não vou saltar de pára-quedas com você. Tá bom, avião eu aceito... É mais seguro. O que é isso? Você disse que ama o que eu escrevo e que ama o que eu falo e quando eu falo assim, sem parar. Você disse que ama as minhas reticências porque mulher de verdade sempre está se reinventando. Até meu cabelo? Mas meu cabelo está uma droga dessa cor! Você acaba de dizer que ama que eu não goste de política porque tá cheio dessas minas revolucionárias. Mas eu sou tão sem graça... O que é isso? Você me ama? Mas o que é amor? Vem depois da paixão? Tem os mesmos sintomas e efeitos colaterais, choros e etc? Não... Não olha assim, por favor! Não olha assim que eu tenho medo do seu olhar e do seu sorriso de "você é linda e boba e linda". Às vezes ser medrosa assim é ruim, mas já me poupou de ter o coração partido por mais de uma vez. Não olha assim que assim eu fico louca e perco o medo de sentir e eu morro, morro de medo de não ter esse medo. Agora estou embaixo dos cobertores abafando o grito no travesseiro e precisando de um uísque, mas tomando café porque tenho medo de mim bêbada. Não, não é por causa dos trovões lá fora, é por causa da calmaria e de você olhando pra mim sorrindo e dizendo "relaxa, menina". Meu grito é de felicidade e estou abafando pra não despertar o resto dos medos de novo, senão eles fecham o portal. Deixa eles dormirem, tô feliz.