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E diga que me adora.

                

Sem coragem para levantar, sem um motivo sequer para fazer isso. O rádio relógio acordou-a pontualmente às seis tocando, para atenuar sua nostalgia, Adriana Calcanhotto. Ela cantava baixinho entre um soluço e outro, a letra adequava-se perfeitamente à sua situação. Pôs-se de joelhos na cama como quem paga uma promessa e afastou a cortina da janela. O sol ficou com dó, saiu de trás de uma nuvem, irradiou seu rosto e tentou -em vão- enxugar suas lágrimas. Ela passou a mão pelos cabelos despenteados e deitou-se novamente, ficou ali olhando para o teto, tentando reviver pela milésima vez aquelas tardes com tanto amor ao lado daquele rapaz.Agora ele se fora, ela tinha certeza plena de que ele não voltaria. Tinha certeza, mas não deixava a casa desarrumada, tinha na geladeira os ingredientes para fazer o doce preferido dele, usava sempre as camisolas que ele mais gostava. Tinha certeza, mas continuava a deixar uma chave embaixo do tapete, só pra que se, talvez, quem sabe? Assim... Ele decidisse fazer uma visitinha? Passar só pra dar um "oi", pegar alguns pertences, seus discos ou os rascunhos daquele livro que os dois estavam escrevendo há dois meses. Aliás, os rascunhos não, uma cópia talvez. Quem ele achava que era? Os rascunhos eram dela! A história era dela, ele só estava ajudando. Então começou a pensar em diálogos, imaginou discutindo com ele por causa dos malditos (digo, benditos) rascunhos, dizendo-lhe que já que ele era tão seguro de si, publicasse um livro sem nenhuma edição. Que ele podia ir embora, podia levar a casa junto, mas os rascunhos... Então parou, riu melancolicamente, pensou estar ficando louca e de fato estava. "Ele não vem, bobinha, você feriu o orgulho dele, ele não está mais nem aí pra você, essa discografia antiga ou esses rascunhos. Ele virou um canalha, aprenda! Não ouça seu coração, ele não sabe o que diz." Apertou com força a colcha da cama e sorriu. Lembrou de quando ele confundia aquele roxo com bege, ela o chamava de daltônico e ele dizia que, bege ou não, aquela cor não era nada sexy para lingerie. "Mas isso é uma colcha de cama, cara!" Ele dizia que de qualquer modo estava dada a dica. A porta estava entreaberta e enquanto ela estava presa em outra órbita de pensamento, pela brecha ele a observava. O rádio relógio tocou novamente para desespero dela, que esperneou como uma menina com o toque da música e começou a cantar, aos gritos.  
- ENTRE POR ESSA PORTA AGORA E DIGA QUE... 
- Eu te adoro, eu te amo, eu te quero de volta, eu te perdoo. - Disse ele enquanto entrava.
O coração dela quase parou, entrou numa crise de pranto enquanto ele aconchegava-a em seus braços.
- Então você não veio só buscar os rascunhos?
- Vim para continuar escrevendo-os com você. Para comer meu doce preferido, para tirar sua camisola que, cá para nós, é muito mais atraente que a cor dessa colcha.Vim para me instalar na sua cama e na sua vida outra vez.
Ela cantou quatro vezes seguidas o refrão daquela música, era a única maneira de dizer ao seu amado  tudo o que sentia naquele momento.

"Ainda tem o seu perfume
Pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz..."





Da boca do cupido.




Sentada naquele velho banco de praça com a madeira já descascando, estava uma menina. As lágrimas nos olhos permaneciam presas, certamente com muita garra. Ficavam ali até evaporar e embaçavam as lentes de seus óculos de grau. Era míope, certamente. Ao seu lado estava um garoto tentando incansavelmente segurar as pequenas mãos dela, que recuavam constantemente de uma maneira tão brusca e ao mesmo tempo tão delicada. Pra quem aquilo estava sendo mais difícil, sinceramente, não sei lhe dizer. Só sei que em ambos doía muito, era visível. Fui me aproximando e parei bem na frente dos dois, agradecendo a Deus por eles não terem a capacidade de me enxergar. Ele se desculpava, implorava por perdão, nunca vi tão jovem e tão triste coração. Amargurado, arrependido, estraçalhado. Mil e um ainda era pouco para enumerar em quantos pedaços estava partido. Ela ficava calada o tempo inteiro, apenas ouvia. Seu esforço para ter uma face inexpressiva era vão, pois qualquer um que ali passasse sentiria um nó na garganta somente em olhá-la. Ele confessava-lhe o amor que sentia por outra, não mulher, mas estado. Ele queria prender-se somente à liberdade. Imagine, coitadinha. Quis morrer, contudo, continuou. O menino pedia perdão novamente e mais uma vez, queria ao menos sua amizade. 
- Tentar ficar amigos sem rancor? A emoção acabou. - Foram as primeiras e últimas palavras que ela pronunciou.
Escorreu uma lágrima no rosto dele, dos lábios saiu um "adeus", dos olhos mais um "me desculpe"... Seu cérebro dizia "é o certo", seu peito gritava que "nunca vou gostar de ninguém assim". Suas pernas tremeram pelo que viria. Não o culpo, ele só tinha medo e não sabia como lidar com isso... Tinha ouvido a vida inteira que adolescente é jovem demais pra amar. E se foi, mesmo quando tudo que mais queria era ficar. Ela ficou sentada por ali um bom tempo, sem coragem de ir pra casa com medo de que, pela primeira vez, não conseguisse fingir. 
Eu tive vontade de puxá-lo pela orelha e amarrá-lo nela pra sempre. Mas eu já fiz o meu papel, não é sempre que posso intervir, já os flechei uma vez. É triste, mas agora só posso esperar que se encontrem outra vez e façam diferente. E vão se encontrar, tá escrito. Nasceram um pro outro, só não têm total consciência disso.