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Escritores sofrem demais.




"Hoje vim falar da saudade que tenho, que tive,
Terei para sempre.
Saudade de verdade,
Voz embargada.

Saudade com nós na garganta. 
Difíceis de serem desatados, nós realmente cegos... 
Nós de olhos fechados, lado a lado. 

Hoje eu, tu e ontem nós,
Agora como os da garganta... Intocáveis. 
Nesse tempo de tropeços que, de tantos, 
Viraram dança, maneira esquisita de andar. 

Agora não há queda,
Joelho e cotovelo ralados... 
Só coração.

Machucado pelos cacos de vidro e arames farpados 
Do alto dessa muralha (remenda de abismo).
Tudo besteira, frescura.
Puro orgulho."

Mostrou o poema ao professor de literatura, que lhe salvou a pele após ser pega bebendo nos fundos da escola pelo guarda. Ele leu, admirou sua afinidade com as palavras e falou:

- Menina, larga de ser boba... Porque a dor que a bebida faz tênue, volta intensificada pela ressaca. Você é boêmia, nasceu no século errado.
- Nasci pra escrever, professor. - Respondeu.
- Querida, vá ao cinema... Escritores sofrem demais.