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Buda - As pestes palavras de Chico Buarque.


O meu amor, com um jeito manso que é só seu, fez com que eu admirasse Chico Buarque de Holanda ao recitar-me ao pé do ouvido uma de suas canções. "Eu te amo" é uma música linda, profunda, poética e que, de certa forma, se encaixou àquele momento e marcou minha vida. O meu amor, com um jeito manso que é só seu, fez com que eu me rendesse um pouco mais aos encantos de Chico quando presenteou-me com uma biografia de Vinícius de Moraes que, em certos momentos, descrevia a amizade entre estes gênios boêmios de gerações distintas. O meu amor, com um jeito manso que é só seu, indiretamente fez com que eu conhecesse a literatura de Buarque, quando me apresentou um grupo que funcionava como uma espécie de sebo, no facebook. O título me intrigou, achei a capa legal, quis entender o que se passava e tentei comprar "Budapeste", sem sequer ler sobre o que se tratava na internet. Não consegui comprar, pois uma pessoa reservou o livro antes de mim. O meu amor, com um jeito manso que é só seu, ao me pedir que procurasse um livro de gramática inglesa na biblioteca de minha escola para emprestar-lhe, me pôs em  frente à capa amarelo-escuro de Budapeste. O livro estava perdido na prateleira de gramática estrangeira, era o destino. O meu amor fez sua parte, mesmo sem querer, até que eu me encontrasse a sós com aquele livro. Chico Buarque ganhou meu respeito, me fez engolir as palavras e me inspirou a escrever tantas outras. José Costa, a personagem principal (que só consegui imaginar com os olhos azuis e as rugas profundas de Chico), era um encantador de histórias. José Costa prostituía suas palavras e as vendia numa agência medíocre, como uma puta vende seu corpo num quarto medíocre de um motel de beira de estrada. José Costa era um homem que encontrava o prazer ao ver as pessoas enaltecendo seus escritos, mas pedindo autógrafos ao autor errado. Chico Buarque, além de fazer uma tremenda crítica à literatura puramente comercial, me prende e me toca. Trata a escrita como uma relação extraconjugal, egoísta, vaidosa. E é assim, caramba! A gente se apega, se envaidece e se orgulha do que escreve. Acontece com todo escritor, com todo pseudo escritor, com toda pessoa que vomita seus sentimentos em forma de tinta e papel. As palavras se relacionam com as pessoas, com o mundo e eu não quero nem ler outro livro de Chico, só para não tirar este da cabeça, para não sofrer decepções. Faço das palavras encontradas nas páginas de Budapeste, o homem a quem me obrigo a ser inteiramente fiel.


- Railma Medeiros

A luz e a escuridão.





Ela foi dormir perturbada, discussões eram raras entre eles, as palavras pensadas tornavam-se mais ferinas quando ditas. Após um pesadelo, procurou o celular por toda a parte, até encontrar. 

"Eu não queria ser repetitiva, não queria que as palavras se tornassem figuras já vistas, mas sempre tenho história demais para contar. Estou te ligando porquê sonhei que falava uma banalidade qualquer e um cara desconhecido me dizia que o rio, pelo qual meu corpo flutua inerte, é profundo demais, que o céu acima de mim é sempre noturno. Acordei frustrada por não ter conseguido responder nada durante o sonho, por despertar logo após um homem colocar um espelho diante do meu rosto e me forçar a enxergar o que eu tento esconder até mesmo de mim. Estou te ligando para falar que a água é meio densa, mas eu queria te ensinar a mergulhar em mim - bocejou. O amor é o tubo de oxigênio, prometo que não te faltará ar. A claridade sempre me assustou mais do que a escuridão, eu sempre temi que a luz me cegasse, que o sentimento me impossibilitasse de enxergar o mundo ao meu redor. Você chegou e me fez acreditar que o amor não é cego, eu odeio seus defeitos. O brilho que você trouxe não me força a tapar os olhos, só faz com que eles brilhem. Entende?"

Ela estava em uma crise de sonambulismo, dali há algumas horas nem lembraria do que havia dito. Quando soubesse, se arrependeria. O rapaz acordou com o telefone residencial tocando, pensou que fosse parente doente e correu para atender. Ele ouviu tudo pacientemente, falou que a entendia. Disse, sobriamente, que a amava e desligou o telefone. Ele sabia que de manhã ela não lembraria, estava sonâmbula ou bêbada para falar tudo aquilo, mas sentia-se feliz

- Railma Medeiros