Páginas

Bactéria.






As palavras já não possuo
Elas fogem correndo de mim
Esqueci a fórmula da cura
Dos dias em que fico triste assim

Para onde foram eu não sei. Onde estão?
Talvez em algum escuro de mim
Onde só a saudade decifra o fim
Ou em algum lugar tão claro
Onde só a morte da cega rotina
Faz com que minha retina dê um disparo

Minha poesia é bactéria 
Clamor, amor, dor, fervor
Na cultura do que faz palpitar a artéria
Mas já que a vida também é monotonia
Pelo bem da minha anatomia, me faça um favor

Não me deixe aqui sozinha
Ainda não sei nadar
Nesse mar de obrigações, sonhos e ambições
Não deixe que me falte, da manhã, o alvor.


Cansada de estudar,
- Railma Medeiros

Quem é mais sentimental que eu?


Uma vez você me perguntou se, depois de todos esses anos, eu ainda o amava, ou se o que me fazia ficar eram as lembranças boas, a nossa história bonita, as cartas. Eu nunca tinha me dado ao trabalho de pensar sobre isso, simplesmente por haver pouco a ser pensado e demais a ser sentido. Não sou dramática o suficiente - ou sou dramática demasiadamente? - para falar que daria a minha vida por você ou que farias o mesmo por mim. Não por não ser verdade, mas somente porque essa ideia me deixa com tiques nervosos de medo. Acho que não conseguiríamos seguir em frente se acabasse dessa forma. O que quero dizer com tudo isso é que trocaria a minha felicidade pela sua e, caso algo de inevitavelmente ruim aconteça contigo, prefiro estar ao seu lado, prefiro que matem a nós dois em vez de somente a um de nós. Nos tornamos dependentes de uma forma muito boa, muito bonita, bem literária mesmo. Se eu pudesse, tomaria para mim todas as suas dores, bateria em quem se comportasse como um ser-humano-não-portador-de-sentimentos contigo, daria meu rosto para apanhar no lugar do seu. Eu já tinha escrito sobre isso, já mandei depoimentos no orkut para os meus melhores amigos, mas há pouco descobri que, nunca, em toda a minha vida, tinha sentido isso por alguém, senão por ti. Isso parece amor ou comodidade? Acho que é mais intenso que pura preguiça de mudar. É amor, sim. Foi assim que eu te respondi, é isso que eu falo sempre e, principalmente, é isso que eu - mesmo sem querer - deixo escapar para quem quiser. Até um cego consegue perceber, pois minha voz muda quando falo seu nome.



Railma Medeiros

Amianto.


Você quis me salvar, eu só queria que você não me poupasse de cair e me deixasse sentir o vento durante a descida, queria que deixasse que eu substituísse minha artéria pela linha tênue entre a vida e a morte. Eu aceitei o meio termo quando você quis ser meu paraquedas e se propôs a vir comigo, pois viver sozinho já é triste o suficiente, permitir-se morrer na solitária é masoquismo demasiado. Depois de muito relutar, aceitei: já que "somos todos programados para cair", que haja amor para amortecer. 


Railma Medeiros
Viajando ao som de Supercombo.

"Venha, desce daí
Deixa eu te levar pra um café, pra conversar
Te ouvir
E tentar te convencer"

Boa sorte - Discurso escrito para a colação de grau dos cursos técnicos integrados do IFRN.



“É só isso, não tem mais jeito, acabou” é o trecho inicial da música “Boa Sorte”, de Vanessa da Mata.
Desde 2010, vimos várias turmas de quarto ano concluindo o curso e, em muitas delas, esta música voltava como figurinha repetida. Muitos de nós esperávamos pelo dia em que poderíamos cantá-la e dizer, finalmente: boa sorte.
Não tem mais jeito, eu entendo.  Acabou e, com muito pesar, eu aceito. Entretanto, contrariando Vanessa da Mata, não é (e nunca foi) SÓ isso. Foi muito, foi intenso e extremamente belo. Não foi somente o ensino médio ou o curso técnico, mas a melhor época de nossas vidas até agora. Entrar nesta instituição foi um divisor de águas para todos nós, formandos, pois modificou nossas rotinas e as rotinas de outras pessoas aqui presentes. Falo de nossos professores, que nos passaram tantos conhecimentos sobre o mundo, falo de nossos amigos e de nossas famílias, que sentiram nossa falta nos eventos sociais durante estes tão longos - e ao mesmo tempo tão breves - quatro anos.
Chegamos no dia oito de março de 2010, ficamos boquiabertos com a dimensão de tudo, passamos vergonha ao andar em bando, tivemos medo das coordenadas geográficas sugeridas pelos veteranos, precisamos de uns dias para nos adaptar à distância do bloco C ao laboratório de línguas estrangeiras, à cantina e às famosas e finadas salas de projeção, as únicas salas de aula climatizadas em 2010. Sofremos com a ausência de um ar condicionado por um bom tempo. Deixamos as cartolinas bordadas com papel colorido de lado, apresentamos os primeiros seminários em Power point, nos vestimos ridiculamente para os esquetes de língua portuguesa e nos emocionamos com as lições de vida passadas por alguns dos nossos professores. Lidamos com a ausência de colegas que reprovaram ou seguiram em frente de outras maneiras. Descobrimos que não somos, nem de longe, os mais inteligentes da sala, muito menos da escola, e passamos a valorizar bem mais qualquer nota a partir de seis. O primeiro ano foi realmente muito marcante.
Em 2011, tivemos o contato inicial com as disciplinas técnicas e começamos a entender o que nos esperava. No primeiro ano, foi surpreendente para nós todo o clima dos jogos internos, mas no segundo, foi sensacional: manhã e tarde se juntaram e deram um ar mais competitivo ainda. Jogamos, gritamos, trocamos xingamentos com os rivais. Abraçamos-nos, choramos feito bobos com as vitórias, botamos a culpa no juiz pelas derrotas. Viramos artistas, comediantes, trágicos. A disciplina de artes cênicas nos proporcionou ser além do que podemos exibir comumente, o teatro nos deu liberdade: a timidez teve espaço para ser voz ativa, dramas pessoais foram transformados, no palco, em dramaturgia. Pudemos provar do amor e do ódio de nossas personagens. Foi a experiência mais mágica a qual tivemos contato.
A partir do terceiro ano, a nossa evolução tornou-se mais perceptível. Amadurecemos e as coisas ficaram um pouco diferentes. Começaram os estágios, a rotina pesada de cursinho e o tempo nas rosquinhas foi diminuído drasticamente. Entendemos verdadeiramente, nos dois últimos anos, o significado dos nossos cursos. Há pouco fizemos nossas últimas provas, entregamos nossos últimos trabalhos, assistimos às últimas aulas. A ficha, talvez, só vai cair semana que vem, quando acordarmos despreocupados por não termos nenhuma atividade acadêmica a ser feita. Ou talvez a realidade escorra em nossos rostos, juntamente com as lágrimas da despedida, neste instante ou no seguinte.
Aqui, neste segundo lar até o dia de hoje, rimos, choramos, comemos, dormimos, brigamos. Nas rosquinhas, especialmente, paqueramos. Fizemos amizades que durarão a vida inteira, alguns de nós tivemos a sorte de encontrar amores. Algumas pessoas ignoram as dores para superá-las, mas nem que quiséssemos poderíamos esquecer-nos do vazio que teremos que preencher de outra forma quando tudo acabar. Pablo Neruda disse, em um de seus poemas, que “a única pessoa no mundo que deseja sentir saudade é aquela que nunca amou”. Este não é o nosso caso, pois “amor” é a palavra que melhor define o que sentimos pelo IFRN e, quanto à nostalgia, aprenderemos a conviver de forma harmoniosa, até que enxerguemos o fim como algo essencial.
Quando chegamos aqui, tivemos medo do que viria, de não nos adaptar. Quando víamos os alunos mais antigos loucos com o vestibular, pensávamos: ainda temos 3 anos! Depois, ainda temos 2 anos! Ainda temos 1 ano! Chegou muito rápido, comemoramos juntos nossas aprovações e todos nós, durante todo esse tempo, mas especialmente após o resultado do Enem, sentimos honra por estudar em uma escola pública de qualidade, onde nosso sucesso depende apenas de nossos méritos. As melhores notas, neste momento, não têm a maior validade, pois somos todos vencedores por termos superado todas as dificuldades. Muitas vezes pensamos que não conseguiríamos e, olhem ao redor, chegou a nossa hora! O mundo deposita suas esperanças em nós, pois somos a mudança. Informática, Mecânica, Eletrotécnica, Edificações, Geologia, Mineração, Controle Ambiental: este país precisa de gente como nós, precisa de técnicos com a formação que aqui tivemos, que levem humanidade e cidadania paralelos ao conhecimento científico.
Por terem nos proporcionado a dádiva de sermos a mudança, a todos os funcionários que contribuem para que esta instituição seja reconhecida por sua excelência, direcionamos o nosso muito obrigado: diretor, reitor, técnicos administrativos, professores, funcionários do setor médico e serviço social, servidores terceirizados e porteiros que suportaram nos dar as mesmas advertências todos os dias. Deixamos também um muito obrigado especial aos nossos amigos e às nossas famílias, que não desistiram de nós nos momentos mais difíceis desta jornada, somos gratos por todo amor e compreensão.
Está chegando ao fim, daqui a pouco lançaremos nossos capelos para o alto, devolveremos estas becas para que elas possam ser usadas por outras pessoas, em outros anos, por corpos trêmulos e tão emocionados quanto os nossos. Muito provavelmente estas turmas não serão lembradas eternamente pelos que aqui permanecerão ou por aqueles que ainda estão por vir, a não ser pela placa com nossos nomes e fotografias nas paredes de nossas diretorias. Eles rirão dos nomes mais exóticos, dos penteados de cabelo, apontarão para os mais belos e para os menos apessoados, assim como fizemos. Para eles, será uma placa com um espelhamento legal para as meninas arrumarem o cabelo quando passarem. Para nós, que é o que realmente importa, será a marca dos melhores anos, de nossa melhor forma física, maior vontade de viver e de conquistar o mundo, de salvar o planeta de nós mesmos. No futuro, mostraremos nossas fotos aos nossos filhos e netos e, sem nenhuma dúvida, sem precisar que falemos mais nada, eles verão o quanto fomos felizes.
Por fim, parafraseando Vinícius de Moraes:                 

Assim, quando mais tarde nos procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Possamos nos dizer dos amores (que aqui tivemos):
Não foi imortal, posto que era chama
Mas foi infinito enquanto durou

Nos vemos no pódio da vida. Muito obrigada!

Railma Medeiros

Para alguém chamado "meu bem".



Quando o oceano está demasiadamente agitado e, lá do fundo, as pedras machucam-me os pés, você me faz boiar.
Quando a correnteza da rotina, da fadiga e da injustiça me afastam do ser humano que realmente sou, você me traz de volta. 
Quando as lágrimas estão a ponto de inundar minha alma, seus (a)braços me coletam da escuridão e salvam minha vida. 
Contigo não tenho motivos para sentir medo do (a)mar
Quando os dias úteis esculpem em meu peito o hematoma roxo da saudade, você me beija e se situa dentro da minha necessidade - antes mesmo que doa. 
Tê-lo de corpo inteiro, ouvir música, falar bobagens, rir exageradamente e sentir-me completamente feliz ao ver o nosso amor refletido na imensa negritude dos teus olhos.

Voltando a ser.






Parei para rever alguns textos antigos e me vislumbrei perante o seguinte questionamento: por que parei? A resposta veio automaticamente, os motivos são claros: falta de tempo, horários a cumprir, responsabilidades... O de sempre. Os anos se passaram e não sou mais uma garota de quinze anos sonhando com amores recheados de utopia, não tive mais como varar madrugadas criando personagens e enredos que eu fingia serem meus. Tive que estudar bastante e continuo tendo, amadureci muito e passei por experiências diferentes das já conhecidas. Passei a construir uma história de amor real, minha vida transformou-se em um conto itinerante e sem roteiro preestabelecido. Escrevi uma carta de amor por mês nos últimos vinte e nove meses e imagino a Railma de quatro anos atrás em estado de choque ao ver que todas tiveram um destinatário fixo e sem pseudônimos. Diante tudo isso, tinha esquecido o quanto me faz bem criar, observar gente no ponto de ônibus e inventar histórias para rostos desconhecidos. Acho que todas as histórias de ficção por mim já escritas, caso tivessem vida própria, me odiariam, sentiriam-se usadas. E não passa de uma verdade absoluta, que eu desejo que mude. Os mais belos textos redigi sob o encalço de alguma espécie de dor. A felicidade nunca me motivou tanto quanto a tristeza para escrever, criar sempre foi minha rota de fuga para a angústia. Agora, mesmo sentindo-me tão feliz, embora mais atarefada do que gostaria e exausta de ser gente grande, pus na cabeça que não posso deixar que morra, não posso arriscar perder o domínio sobre as palavras. Quero continuar a alegrar ao meu amado e colecionar mil outros amores, centenas de corações. Relendo tanto de mim vomitado em palavras, lembrei que sou boa com isso. Desafio-me, então, a descobrir se sou escritora, se consigo ser e inventar a personagem principal concomitantemente. Se consigo encontrar a antiga pureza dentro de mim, se ainda consigo fazer olhos brilharem. Este ano eu preciso voltar a ser. Eu quero conseguir ser, além de filha, de namorada e de estudante. Eu preciso voltar a ser uma encantadora de palavras, uma colecionadora de corações.


- Railma Medeiros