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Voltando a ser.






Parei para rever alguns textos antigos e me vislumbrei perante o seguinte questionamento: por que parei? A resposta veio automaticamente, os motivos são claros: falta de tempo, horários a cumprir, responsabilidades... O de sempre. Os anos se passaram e não sou mais uma garota de quinze anos sonhando com amores recheados de utopia, não tive mais como varar madrugadas criando personagens e enredos que eu fingia serem meus. Tive que estudar bastante e continuo tendo, amadureci muito e passei por experiências diferentes das já conhecidas. Passei a construir uma história de amor real, minha vida transformou-se em um conto itinerante e sem roteiro preestabelecido. Escrevi uma carta de amor por mês nos últimos vinte e nove meses e imagino a Railma de quatro anos atrás em estado de choque ao ver que todas tiveram um destinatário fixo e sem pseudônimos. Diante tudo isso, tinha esquecido o quanto me faz bem criar, observar gente no ponto de ônibus e inventar histórias para rostos desconhecidos. Acho que todas as histórias de ficção por mim já escritas, caso tivessem vida própria, me odiariam, sentiriam-se usadas. E não passa de uma verdade absoluta, que eu desejo que mude. Os mais belos textos redigi sob o encalço de alguma espécie de dor. A felicidade nunca me motivou tanto quanto a tristeza para escrever, criar sempre foi minha rota de fuga para a angústia. Agora, mesmo sentindo-me tão feliz, embora mais atarefada do que gostaria e exausta de ser gente grande, pus na cabeça que não posso deixar que morra, não posso arriscar perder o domínio sobre as palavras. Quero continuar a alegrar ao meu amado e colecionar mil outros amores, centenas de corações. Relendo tanto de mim vomitado em palavras, lembrei que sou boa com isso. Desafio-me, então, a descobrir se sou escritora, se consigo ser e inventar a personagem principal concomitantemente. Se consigo encontrar a antiga pureza dentro de mim, se ainda consigo fazer olhos brilharem. Este ano eu preciso voltar a ser. Eu quero conseguir ser, além de filha, de namorada e de estudante. Eu preciso voltar a ser uma encantadora de palavras, uma colecionadora de corações.


- Railma Medeiros