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Boa sorte - Discurso escrito para a colação de grau dos cursos técnicos integrados do IFRN.



“É só isso, não tem mais jeito, acabou” é o trecho inicial da música “Boa Sorte”, de Vanessa da Mata.
Desde 2010, vimos várias turmas de quarto ano concluindo o curso e, em muitas delas, esta música voltava como figurinha repetida. Muitos de nós esperávamos pelo dia em que poderíamos cantá-la e dizer, finalmente: boa sorte.
Não tem mais jeito, eu entendo.  Acabou e, com muito pesar, eu aceito. Entretanto, contrariando Vanessa da Mata, não é (e nunca foi) SÓ isso. Foi muito, foi intenso e extremamente belo. Não foi somente o ensino médio ou o curso técnico, mas a melhor época de nossas vidas até agora. Entrar nesta instituição foi um divisor de águas para todos nós, formandos, pois modificou nossas rotinas e as rotinas de outras pessoas aqui presentes. Falo de nossos professores, que nos passaram tantos conhecimentos sobre o mundo, falo de nossos amigos e de nossas famílias, que sentiram nossa falta nos eventos sociais durante estes tão longos - e ao mesmo tempo tão breves - quatro anos.
Chegamos no dia oito de março de 2010, ficamos boquiabertos com a dimensão de tudo, passamos vergonha ao andar em bando, tivemos medo das coordenadas geográficas sugeridas pelos veteranos, precisamos de uns dias para nos adaptar à distância do bloco C ao laboratório de línguas estrangeiras, à cantina e às famosas e finadas salas de projeção, as únicas salas de aula climatizadas em 2010. Sofremos com a ausência de um ar condicionado por um bom tempo. Deixamos as cartolinas bordadas com papel colorido de lado, apresentamos os primeiros seminários em Power point, nos vestimos ridiculamente para os esquetes de língua portuguesa e nos emocionamos com as lições de vida passadas por alguns dos nossos professores. Lidamos com a ausência de colegas que reprovaram ou seguiram em frente de outras maneiras. Descobrimos que não somos, nem de longe, os mais inteligentes da sala, muito menos da escola, e passamos a valorizar bem mais qualquer nota a partir de seis. O primeiro ano foi realmente muito marcante.
Em 2011, tivemos o contato inicial com as disciplinas técnicas e começamos a entender o que nos esperava. No primeiro ano, foi surpreendente para nós todo o clima dos jogos internos, mas no segundo, foi sensacional: manhã e tarde se juntaram e deram um ar mais competitivo ainda. Jogamos, gritamos, trocamos xingamentos com os rivais. Abraçamos-nos, choramos feito bobos com as vitórias, botamos a culpa no juiz pelas derrotas. Viramos artistas, comediantes, trágicos. A disciplina de artes cênicas nos proporcionou ser além do que podemos exibir comumente, o teatro nos deu liberdade: a timidez teve espaço para ser voz ativa, dramas pessoais foram transformados, no palco, em dramaturgia. Pudemos provar do amor e do ódio de nossas personagens. Foi a experiência mais mágica a qual tivemos contato.
A partir do terceiro ano, a nossa evolução tornou-se mais perceptível. Amadurecemos e as coisas ficaram um pouco diferentes. Começaram os estágios, a rotina pesada de cursinho e o tempo nas rosquinhas foi diminuído drasticamente. Entendemos verdadeiramente, nos dois últimos anos, o significado dos nossos cursos. Há pouco fizemos nossas últimas provas, entregamos nossos últimos trabalhos, assistimos às últimas aulas. A ficha, talvez, só vai cair semana que vem, quando acordarmos despreocupados por não termos nenhuma atividade acadêmica a ser feita. Ou talvez a realidade escorra em nossos rostos, juntamente com as lágrimas da despedida, neste instante ou no seguinte.
Aqui, neste segundo lar até o dia de hoje, rimos, choramos, comemos, dormimos, brigamos. Nas rosquinhas, especialmente, paqueramos. Fizemos amizades que durarão a vida inteira, alguns de nós tivemos a sorte de encontrar amores. Algumas pessoas ignoram as dores para superá-las, mas nem que quiséssemos poderíamos esquecer-nos do vazio que teremos que preencher de outra forma quando tudo acabar. Pablo Neruda disse, em um de seus poemas, que “a única pessoa no mundo que deseja sentir saudade é aquela que nunca amou”. Este não é o nosso caso, pois “amor” é a palavra que melhor define o que sentimos pelo IFRN e, quanto à nostalgia, aprenderemos a conviver de forma harmoniosa, até que enxerguemos o fim como algo essencial.
Quando chegamos aqui, tivemos medo do que viria, de não nos adaptar. Quando víamos os alunos mais antigos loucos com o vestibular, pensávamos: ainda temos 3 anos! Depois, ainda temos 2 anos! Ainda temos 1 ano! Chegou muito rápido, comemoramos juntos nossas aprovações e todos nós, durante todo esse tempo, mas especialmente após o resultado do Enem, sentimos honra por estudar em uma escola pública de qualidade, onde nosso sucesso depende apenas de nossos méritos. As melhores notas, neste momento, não têm a maior validade, pois somos todos vencedores por termos superado todas as dificuldades. Muitas vezes pensamos que não conseguiríamos e, olhem ao redor, chegou a nossa hora! O mundo deposita suas esperanças em nós, pois somos a mudança. Informática, Mecânica, Eletrotécnica, Edificações, Geologia, Mineração, Controle Ambiental: este país precisa de gente como nós, precisa de técnicos com a formação que aqui tivemos, que levem humanidade e cidadania paralelos ao conhecimento científico.
Por terem nos proporcionado a dádiva de sermos a mudança, a todos os funcionários que contribuem para que esta instituição seja reconhecida por sua excelência, direcionamos o nosso muito obrigado: diretor, reitor, técnicos administrativos, professores, funcionários do setor médico e serviço social, servidores terceirizados e porteiros que suportaram nos dar as mesmas advertências todos os dias. Deixamos também um muito obrigado especial aos nossos amigos e às nossas famílias, que não desistiram de nós nos momentos mais difíceis desta jornada, somos gratos por todo amor e compreensão.
Está chegando ao fim, daqui a pouco lançaremos nossos capelos para o alto, devolveremos estas becas para que elas possam ser usadas por outras pessoas, em outros anos, por corpos trêmulos e tão emocionados quanto os nossos. Muito provavelmente estas turmas não serão lembradas eternamente pelos que aqui permanecerão ou por aqueles que ainda estão por vir, a não ser pela placa com nossos nomes e fotografias nas paredes de nossas diretorias. Eles rirão dos nomes mais exóticos, dos penteados de cabelo, apontarão para os mais belos e para os menos apessoados, assim como fizemos. Para eles, será uma placa com um espelhamento legal para as meninas arrumarem o cabelo quando passarem. Para nós, que é o que realmente importa, será a marca dos melhores anos, de nossa melhor forma física, maior vontade de viver e de conquistar o mundo, de salvar o planeta de nós mesmos. No futuro, mostraremos nossas fotos aos nossos filhos e netos e, sem nenhuma dúvida, sem precisar que falemos mais nada, eles verão o quanto fomos felizes.
Por fim, parafraseando Vinícius de Moraes:                 

Assim, quando mais tarde nos procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Possamos nos dizer dos amores (que aqui tivemos):
Não foi imortal, posto que era chama
Mas foi infinito enquanto durou

Nos vemos no pódio da vida. Muito obrigada!

Railma Medeiros

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