Páginas

Quem é mais sentimental que eu?


Uma vez você me perguntou se, depois de todos esses anos, eu ainda o amava, ou se o que me fazia ficar eram as lembranças boas, a nossa história bonita, as cartas. Eu nunca tinha me dado ao trabalho de pensar sobre isso, simplesmente por haver pouco a ser pensado e demais a ser sentido. Não sou dramática o suficiente - ou sou dramática demasiadamente? - para falar que daria a minha vida por você ou que farias o mesmo por mim. Não por não ser verdade, mas somente porque essa ideia me deixa com tiques nervosos de medo. Acho que não conseguiríamos seguir em frente se acabasse dessa forma. O que quero dizer com tudo isso é que trocaria a minha felicidade pela sua e, caso algo de inevitavelmente ruim aconteça contigo, prefiro estar ao seu lado, prefiro que matem a nós dois em vez de somente a um de nós. Nos tornamos dependentes de uma forma muito boa, muito bonita, bem literária mesmo. Se eu pudesse, tomaria para mim todas as suas dores, bateria em quem se comportasse como um ser-humano-não-portador-de-sentimentos contigo, daria meu rosto para apanhar no lugar do seu. Eu já tinha escrito sobre isso, já mandei depoimentos no orkut para os meus melhores amigos, mas há pouco descobri que, nunca, em toda a minha vida, tinha sentido isso por alguém, senão por ti. Isso parece amor ou comodidade? Acho que é mais intenso que pura preguiça de mudar. É amor, sim. Foi assim que eu te respondi, é isso que eu falo sempre e, principalmente, é isso que eu - mesmo sem querer - deixo escapar para quem quiser. Até um cego consegue perceber, pois minha voz muda quando falo seu nome.



Railma Medeiros