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Coveiros.





A missa chegava ao fim e os coveiros, aguardando o momento de regar mais um corpo de areia, conversavam baixinho, quase que aos sussurros:

- Uma menina tão bonita, né? 
- Ahh, é... Ele, tão moço, já viúvo...

E as palavras eram ditas com tanta tristeza, tanta condescendência, que aquilo parecia ser, de fato, uma gigantesca tragédia para eles, ao invés de um acontecimento corriqueiro. Quando passei, quase pude ouvir-lhes dizer qualquer murmuro de solidariedade para com a decadente imagem em que me tornara. Eu ainda não havia aceitado que a morte me roubasse o que de mais precioso eu tinha e, de dor, remorso, desespero, angústia e todos os piores sentimentos que podem ser provados, tentei me jogar naquele buraco. Nós prometemos morrer juntos, não prometemos? 

ME DEIXEM IR! ME DEIXEM! ME DEIXEM IR!

Eu me pus aos berros, tentando me livrar dos braços que me continham à beira daquele abismo de dois metros a partir do chão, mas que parecia ser mais profundo que o poço que abrigava a minha alma. Puxei uma das cordas (usadas para lançar a mulher que amo na escuridão de microrganismos terrestres) das mãos de um coveiro e tentei envolvê-la em meu pescoço. De tão covarde, sem concluir o ato, eu desmaiei. Antes de apagar, entretanto, pude ouvir os gemidos dos coveiros:

- Ai, meu Deus! - Disseram ambos, em uníssono. 

...

São quatro da manhã e, como um despertador programado, o mesmo pesadelo me faz acordar suado e com uma quase arritmia. Às vezes gostaria que tudo fosse verdade. Nada é mais dolorido do que morrer para alguém ainda em vida.


"Coveiros gemem tristes ais
E realejos ancestrais juram que
Eu não devia mais querer você
Os sinos e os clarins rachados
Zombando tão desafinados
Querem,eu sei,mas é pecado
Eu te perder
É tanto,é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto."




Railma Medeiros

Twenty.




Como disse minha melhor amiga, a palavra é "obrigada".
Acabo de completar 20 anos. How old are you? Nunca mais pronunciarei o "teen" ao me apresentar na primeira aula de uma turma no inglês. Quão velha eu sou? Há pouco mais de um mês, ao voltar para casa de ônibus, me deparei com meu reflexo na janela e me vi ainda tão menina... Cheia de inseguranças, medos, esperança, fé nas pessoas - embora que um pouco menos. Quão velha eu sou? Nesta jornada há duas décadas, declaro não saber quase nada sobre a vida, que sempre me surpreende para o bem ou para o mal. A felicidade é um sentimento (ou conceito?) que abrange tantos outros... Cada ser traz consigo uma trajetória diferente para alcançar a plenitude, pessoas se frustram aos montes na vã tentativa de atender expectativas alheias, eu já estive inclusa nisso. 

A dor é condição existencial, assim como o amor. Se você está vivo, inevitavelmente sentirá. Acredito que o amor me ensina muito sobre o próximo, me conduz a sair da bolha, o meu coração disserta sobre como agirei. A dor, por sua vez, me ensina sobre mim: me põe em imersão dentro da minha personalidade, me faz pensar, realça minha visão sobre o mundo, faz com que eu reconheça os meus limites, me ajuda a ir pelo caminho certo. Sou grata por ter a capacidade de sentir, apesar das quedas, apesar da fraqueza e do temor. Sou uma pessoa que sente demais, consequentemente pensa demais, algumas vezes fala demais, escreve demais... De modo que certos momentos, para alguns até banais, são de extrema importância para mim. Estou aprendendo a lidar comigo, nunca deixarei de aprender

2015 não tem sido um ano fácil e, como resultado de um ano difícil, cresci muito. Acho que que crescer é a capacidade de continuar, independente do que aconteça ou de quem queira que você pare. Anos difíceis me fizeram reconhecer as verdadeiras amizades, os corações capazes de lidar, acolher, respeitar e entender os melhores e os piores sentimentos vindos de mim. Atender expectativas não é mais meu objetivo, porque as pessoas que realmente importam não esperam nada além do que eu sou. E isso me basta.

Obrigada a todos que me direcionaram bons pensamentos, sentimentos e palavras, obrigada em especial aos que fazem isso sempre. Obrigada, universo, por ter trazido quem me faz sorrir de verdade até em um dia complicado, cansativo e auto reflexivo. Obrigada, vida, por me mostrar que sou pequena, bem pequena e, ainda assim, me torno grande no peito de quem me ama.

Railma Medeiros

Sou um rascunho, pelo jeito a mão tremia...

      Quando ganhei o meu primeiro computador (lá pelos dez anos de vida) e a internet era discada, o que me distraía era abrir o Paint, jogar um balde de tinta na tela e, com a borracha, ir abrindo caminhos e dando vida a desenhos. Sempre tive a cabeça lotada de ideias e cenários para músicas que eu gostava, mas nunca tive (nem tenho) a habilidade de colocar isso em papel. Minha relação com o lápis e a folha sempre se limitou à escrita. 

      Há algum tempo, baixei o aplicativo "Paint" no celular, por motivos parecidos com os que me fizeram usar o programa antigamente: falta do que fazer e internet lenta. Apesar de não desenhar bem, não ter coordenação nem muito senso, comecei a perceber que tinha algo comum a todos os desenhos que eu fazia, passei a gostar deles por isso. É como se refletissem algo de mim. Todos foram inspirados em músicas que me tocam e o resultado vocês conferem abaixo. Não espero que alguém goste, mas esse blog é o lugar que mais fala sobre mim e acredito que essa minha vertente merecia estar aqui também.


Mas também quero te mostrar
Que existe um lado bom nessa história
Tudo que ainda temos a compartilhar
E viver e cantar...

(Céu azul - Charlie Brown Jr.)



Vem me fazer feliz, porque eu te amo
Você deságua em mim, e eu, oceano
Me esqueço que amar é quase uma dor.

(Oceano - Djavan)



O céu está no chão
O céu não cai do alto
É o claro, é a escuridão
O céu que toca o chão
O céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos...

(Dois rios - Skank)




Vão tentar derrubar
Que é pra me ver crescer
E, às vezes, me matar
Que é pra eu renascer
Como uma supernova que atravessa o ar
Eu sou a maré viva
Se entrar vai se afogar.

(Maré viva - Fresno)



Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu.
(Eu te amo - Chico Buarque)




Como, se nos amamos feito dois pagãos
Meus seios ainda estão nas tuas mãos
Me explica com que cara eu vou sair.

(Eu te amo - Chico Buarque)




Não fique tão aflita se algo desandou
Vamos pedir proteção à Mãe Natureza
Para que o brilho do amor possa em nossa vida chegar.

(Não chore meu amor - Natiruts)



Só não precisa rir de mim, né?

A primeira imagem aparece com melhor qualidade porque eu troquei de celular, o restante são frutos do meu antigo Windows Phone.

Para finalizar, a música que define todas as imagens deste post (e a minha personalidade):

Fica pra outro dia
Ser um obra prima
Que não fede nem cheira
Não fode e nem sai de cima.

(¡Tchau Radar! - Humberto Gessinger e Esteban Tavares





Rabiscada, assimétrica (mas, sempre colorida)
Railma Medeiros


Cinza.



eis a minha existência
que explica a teoria do caos
que sempre entra em divergência 

"o amor é precipício" 
disse o rapaz de Lisbela
eu não acreditei
amar faz a gente achar que
apesar dos ossos do ofício
a vida é bela 

e caí, ainda estou no ar
de um plano que eu pensava ser bem definido
vim para o menos infinito
e não sei como sair
é um cilindro
também conhecido como poço
as pernas fraquejam, choro por instinto
não consigo dar o goto
sem querer sufocar 

nessa outra imensidão
as palavras rasgam, o abraço amigo não cessa
a dor da solidão
de achar que não há mais no mundo
alguém que me salve desta deplorável festa
com este silêncio tocando tão alto
alguém que me carregue nos braços
e me leve para casa
ou para qualquer lugar que não tenha um chão tão imundo
que atrai e deixa colada toda a minha massa 

aqui, no fundo, na alma
apagaram as luzes
só enxergo monstros no escuro.


Railma Medeiros


"Ressurreição requer morte." (Padre Fábio de Melo)

A voz incômoda de uma mulher.


Ao reencontrar meus amigos do ensino médio e externar que, caso não tivesse ingressado na faculdade de engenharia, teria cursado Direito, uma colega comentou:


- Poxa, daria certinho, Railma do jeito que é barraqueira! 

E eu fiquei pensando porque diabos fui, sou e (seguindo a lógica) sempre serei taxada como encrenqueira/barraqueira/explosiva/brava e etc, se nunca, repito: NUNCA em minha vida comecei uma confusão, briguei com alguém na rua, ofendi uma pessoa ao ser contrariada, levantei a minha voz e usei termos chulos em uma discussão. Já cheguei perto UMA ÚNICA VEZ no ensino médio, quando uma menina metida a valentona quis bater em uma colega de turma, eu me meti para defender e levei um empurrão. Quase briguei com uma maria bonita porque, num impulso de humanidade e calor do momento, decidi defender alguém. Nos separaram antes que algo pior acontecesse, ainda bem. O que eu ganhei com isso? Ser chamada de BARRAQUEIRA pela pessoa que tentei defender. Pelo menos tenho uma história interessante para contar e aprendi a lição de não me meter onde não sou chamada (apesar de saber que faria tudo novamente).

Ao longo dos anos percebi que algumas pessoas (homens, em geral) têm medo de mim, medo das respostas que eu vou dar, se espantam se sou delicada em algum momento. Depois de muitos anos de reflexão e de algumas sessões de tortura tentando ser/agir diferente, descobri que eu não sou o problema. O problema são as pessoas. As pessoas estão acostumadas com o esteriótipo de mulher menininha, delicada, vaidosa, inocente e frágil. A maioria gritante das minhas amigas são assim. Essas características não são predominantes na minha personalidade e isso assusta. Eu sei que isso é verdade porque já vi outras moças que não se encaixam nesse padrão ouvirem o mesmo tipo de barbaridade. Quando cito esses aspectos, não me refiro (somente) à aparência. O maior problema para os meus amigos (que têm medo) e para as minhas amigas (que me julgam barraqueira) é a absurda necessidade que eu tenho de me impor, de me posicionar, de não abaixar a minha cabeça, de dizer a minha opinião de forma objetiva, sem rodeios. Não entendo como isso pode ser tão apavorante. Acredito que é um sintoma causado pela infecção de um vírus chamado "senso comum", muito popular em uma sociedade patriarcal e machista, onde é muito normal que os homens falem o que pensam para outros homens sem que isso pareça ofensivo. Mulher fazer isso? COMO ASSIM? Eu hein! Essa aí é problema na certa!

Não, eu não tenho a intenção de ser grossa, eu não quero ofender ninguém, eu apenas sou assim. Isso não faz de mim menos mulher, isso não faz de vocês menos mulheres ou menos homens, queridos amigxs. Eu não fico chateada com vocês, tudo bem, minha família também não é menos família por pensar assim. Eu só peço que reflitam.
  
Se acham que eu tenho vocação para o Direito por saber me impor, me posicionar com argumentos válidos e por não ter medo de ser quem eu sou... Talvez o Direito esteja perdendo uma - pasmem - MULHER, que seria uma boa profissional, para a Engenharia Ambiental. 

Taí, me deram uma ideia! Talvez o meu ramo seja o Licenciamento!

Muita luz para que o preconceito de vocês cegue. Afinal, faca cega não corta, ou melhor, NÃO PODA ninguém.


Nunca serei calada,
Railma Medeiros

Para mim.


Ao deixá-lo no ponto de ônibus, após uma caminhada molhada pela chuva, por um caminho iluminado pelas nossas risadas, me veio a necessidade de escrever sobre o amor. O amor, esse sentimento difícil de ser explicado, assim como a felicidade, tem um conceito muito individual. Escritores infanto-juvenis podem adocicá-lo demasiadamente (admito, eles também me enganaram). Os céticos podem dizer que é algo cultural, inventado por nós, como uma espécie de Deus, para tornar os fardos da vida mais leves. Para alguns, o amor só existe atrelado à ideia de fidelidade e só se ama de verdade uma vez na vida. Para outros, não. 

Para mim, é quando parece bobo responder à pergunta "por quê você me ama?". Porque, para mim, parece bobo dizer que é por causa dos seus olhos, que é por me sentir protegida ao seu lado, que é porque eu quero ficar com você para sempre. Porque não é por nenhum desses motivos, apesar de você ter olhos lindos, me fazer sentir segura de todos os males do universo e despertar em mim a vontade de fazer durar. Eu não sei explicar, não é racional, é meio que como andar. Você não pensa: mover perna direita para frente, enquanto a perna esquerda é jogada para trás e os braços se mexem para lá e para cá. É como andar! Não há razões para questionar, esquematizar, explicar. E se assim você decidir fazer, é mais provável que se distraia com tantas perguntas desnecessárias e, de repente, caia. Se espatife no chão. Torça o pé, frature um osso, esmague o coração. 

Não sei dizer quando o amor começou, se foi quando esperou meu ônibus ir embora para, só depois de me jogar um beijo no ar, você partir. Não sei se foi quando senti saudade pela primeira vez. Não sei se foi quando fiquei morta de vergonha e você disse "tá tudo bem, relaxa". Não sei. Sei só que, depois de muitos dias felizes, de tantas noites, de centenas de músicas  e sonhos, muita coisa mudou. Para minha surpresa, não acabou.

Padre Fábio de Melo, um baita ser humano e um excelente escritor, fala (não exatamente com essas palavras) que só pode-se dizer que um amor é verdadeiro, quando ele supera as barreiras da utilidade. Isso mesmo, na dor. 

Eu posso não saber explicar as razões que levam alguém a amar, mas afirmo, sem medo de errar, que  você sabe que é amor quando você manda, para o bem do outro, a pessoa amada ir embora e ela decide, contra todos os preceitos lógicos, ficar. 

Só porque te ama, só porque quer enfrentar a tempestade de frente e ao seu lado, se possível chutar as poças de lama nas suas pernas, rir da sua cara e mostrar que dá pra dar risada da tragédia.


"Primeiro, vocês dois seguiram os seus próprios caminhos
E a vibração estava forte
E o que era pequeno se transformou em uma amizade
Uma amizade se transformou num laço
E esse laço nunca será desatado
O amor nunca será perdido
E quando a irmandade vem primeiro
Então a linha nunca será cruzada."


See You Again, de Wiz Khalifa, cover por Boyce Avenue. ♥




Isso é amor. É claro, para mim:
Railma Medeiros.

Passagem.




Viajou para uma prometida eternidade que, secamente, de uma hora pra outra, se desfez. Simplesmente acabou. Desejou uma morte súbita, mas quem sofre é refém do tempo, das filas, das esperas.

Guardou os óculos de grau, colocou as lentes de contato. Tentou enganar a si mesma, achou que se fingisse que enxergava, talvez aquele sentimento não a cegasse nunca mais. 

Seus olhos pareciam maiores, mas ela não enxergava melhor. Nem os dedos de quem a desafiava (quantos tem aqui?), nem o quadro, nem a realidade. Para ela, o poço é uma garrafa. Tem visto o  fundo de várias - e não mais através. São muitas cores, muitas marcas, muitos gostos. Todos ácidos.

Comprou a passagem de volta. Tentou enganar o tempo, achou que se fingisse ter poder sobre ele, talvez ele corresse mais rápido.

A felicidade passou correndo, passou a fé, passaram-se os meses. Ficou a dor. Venderam-lhe o bilhete errado: não passou o amor.



Railma Medeiros

Da boca de um cupido: um velho amigo.




As pessoas vão envelhecendo e deixando, nos intervalos entre os anos, muitas coisas para trás. Perdem manias, antigos amigos, bandas favoritas. Mudam as roupas, os pensamentos, os lugares frequentados. Angelina é mais uma menina de 20 anos e o que vê ao olhar para trás é  que a adolescente que foi aos 13-14 só existe na essência do que ela é hoje. Amadurecimento é um banho de esfoliante, que vai removendo as células mortas da pele - ou aquilo que é necessário deixar ir - mas preservando as marcas mais fortes, que nunca vão nos deixar.
 

Estou sempre ao lado dela, nem sempre podendo intervir. Semana passada pegamos um ônibus e encontramos um velho amigo, mais um que o tempo deixou lá atrás por algum motivo muito banal. 

Ela sorriu por um empurrãozinho meu, sorriu sem ter consciência do que um sorriso daqueles representava, um sorriso que poderia muito bem ser um abraço dos que tiram os pés do chão, tudo muito rápido e sem pensar. Conversaram rapidamente sobre os velhos tempos, com um pesar de saudade, como se tivessem ficado distantes pela correria da vida de gente grande, do trabalho, pelos afazeres da faculdade, pelo tempo dedicado aos romances... Naquele instante não parecia ter havido nunca uma ínfima discussão ou sequer um respingo de lágrima. 

Ambos fingiram não lembrar, mas eu lembrava. Meu coração se partiu por todas as coisas que ela não teve tempo de dizer. Angelina não falou pra ele o quanto sentiu sua falta e sobre ter transformado isso em raiva, não falou que até hoje lembra dele quando aquela música de CPM 22 toca no celular, não pediu desculpas por ter agido como idiota várias vezes.

Até então, ela pensava que aquele rapaz havia sido só mais uma célula morta que a vida tinha esfoliado de seu corpo. Se enganou. O velho amigo acordou do cômodo em que estava no seu coração - uma marca que o tempo não levou,  num misto de felicidade e dor - e desceu daquele ônibus conosco.

Entendi, pela primeira vez, porque não me é permitido protegê-la de tudo. Há alguns anos eu poderia ter evitado inúmeros motivos que levaram ao rompimento daquela amizade, mas se assim tivesse feito, teria lhe roubado a oportunidade de um grandioso aprendizado.

Os inexoráveis ponteiros do relógio nunca dançarão no sentido anti-horário, nunca nos deixarão voltar para corrigir os nossos erros, nem para matar a saudade dos gloriosos e despreocupados tempos de infância. Em compensação, o tempo tem o dom de curar dores, de acalmar almas sedentas de um veneno perigoso chamado "imediato", de proporcionar reencontros e fazer com que, em um dia comum e cheio de cansaço, dentro de um ônibus lotado, duas almas se abracem e digam sem a necessidade de palavras: perdão e obrigado.  



Railma Medeiros



Saudade é vomitar de estômado vazio.


Não tenho conseguido dormir. A insônia, cada vez mais recorrente, me faz passar horas a fio procurando a posição mais confortável para mexer no celular. Ouço músicas, assisto vídeos, me apego à leitura de qualquer coisa fútil para vencer os olhos pelo cansaço. Ligo o computador, decido organizar minhas pastas. Me deparo com um álbum só seu, repleto de fotografias com a mesma pose, por mim batizada de "indo". No estacionamento, no parque, na praia, no ônibus, no aeroporto, na livraria... Suas largas costas carregando uma mochila, seus braços voando em marcha, sua nuca quase sem cabelo. Criei o hábito de te registrar partindo, talvez numa tentativa desesperada de te fazer ficar, porque parte de mim sempre soube que o certo a se fazer seria te deixar ir. Pensei inúmeras vezes se deveria falar sobre isso, pois me dói a inserção de cada sílaba, o que me lembra do porquê parei de escrever: essa dor na garganta, essa vontade de chorar, esse desespero em superar sem tanta espera... Te escrevo, você se foi, nada disso agora importa. Saudade é vomitar de estômago vazio, o resto é nada.



Sobre sentimentos que já se foram e que ainda voltarão,
Railma Medeiros



Amnésia.



A primeira vez em que a vi sem os óculos de grau, me encantei. Naquele universo escuro que eram os teus olhos, mergulhei. Vi de perto cada sarda, cada poro, cada pelo. Naquela tarde em que você me disse que queria tirar a roupa, me joguei. Não pude disfarçar a alegria que me invadiu ao ser convidado para um tour pelo seu corpo nu. Há tempos respeitava o espaço do seu templo - sagrado o tempo - e fazia o que podia: sonhava. Sem perceber, despertei: estava sem truques no jogo que, outrora, eu dominava. Não havia rota ou planos de fuga, não havia estratégia, meu indomável bicho solto estava com amnésia. Parei. Estremeci. Pensei melhor. Temi. Me entreguei. Agora, cá estou, me guiando pelo mapa de sinais das tuas brancas costas: me perdi de amor

Railma Medeiros

Tem são?




Um peso na mente, o porquê de ser gente. Um corpo dormente, que não consente aos comandos insistentes de um coração latente. 

Belo ou deformado? Certo ou errado? Futuro, presente ou passado? Eu estou no entre. 

E me pergunto quando há de ocorrer a transição que tanto anseio, quando vou sair do meio e guiar os rumos do meu ser.


Mas não posso pilhar, não posso gritar, não posso - sobretudo - afastar.

Esses dias de desgaste são como andar ré... Mas, pro meu bem, a tristeza passa com uma noite de sono e uma carícia no pé (e uma boa tora de chocolate).


Railma Medeiros

Apontador.

O que é, o que é, que nasce grande e morre pequeno?
Que com o tempo, a ausência, a banalização do templo, a lotada agenda...
Que junto ao frio, à massagem não concebida, ao "shhhhhhhiu!", à mensagem não respondida...
Vai-se, diminuindo?
O meu coração, depois de tantas quedas, pensei ser como aquele lápis verde que, reza a lenda, nunca quebra. Enganei-me.
O telefone não toca, nem vibra, nem pisca. 
Os ponteiros dançam e nosso destino só aponta-dor.

Railma Medeiros

Visitante ilustre.



Todo dia, aqui em casa, tem entrado um passarinho. 
Acho que ele gostou do meu lar e fez um ninho. 
Da primeira vez, me assustei. Ele também. Bateu as asas e voou. 
No outro dia, ele voltou. Às vezes ele faz cocô, suja o chão, mas eu perdoo.
E como não perdoar? É um bicho que nasceu pra ser livre e vem toda manhã me visitar! 
Passarinho, seu nome de batismo é "amor"?


Railma Medeiros

Marvin, a vida é pra valer.




A vida no planeta Terra é um território localizado entre duas grandes placas tectônicas. Não, não se limita ao nascer-crescer-reproduzir-plantar uma árvore-morrer. Viver é aceitar que não há para onde correr, a nossa existência se encontra em uma zona de convergência. Não adianta recorrer à ilusão de que é possível modificar a natureza para proveito próprio, porque simplesmente não é. Precisamos nos adequar, erguer nossos edifícios sobre alicerces fortes, usar a tecnologia, a engenharia, a biologia e a terapia a nosso favor. E por mais que nos esforcemos, não será sempre suficiente. Os abalos sísmicos virão, nos derrubarão, quebrarão as louças das nossas cozinhas, racharão espelhos e porta-retratos e obras de arte, debilitarão a arquitetura de nossos lares. Depois irão embora, outrora voltarão. Graças a Deus, o céu pode ser contemplado até nas regiões mais afetadas do planeta - e dos nossos corações. Chegarão tempestades para os tempos de seca e arco-íris para os dias cinzentos... Acho que crescer é um pouco disso: a tentativa de aprender a lidar com o desprezo e com o amor, com o sucesso e com o fracasso, com a chuva e com o sol.

Aos 13 anos de idade eu era Marvin (o dos Titãs) e tinha o peso do mundo nas costas, aos 19 eu tenho uma leve escoliose e uma vontade imensa de ser gigante. 
A vida é pra valer, valer à pena depende majoritariamente de nós.

Railma Medeiros


Luz dos olhos teus.



Eu fico lembrando do jeito 
que se fecham os seu olhos...

Quando o cansaço lhe arremata, pesado.
Quando você balança a cabeça com desdém, ácido.
Ou quando me beija, calmo.

De repente suas pálpebras se abrem e eu mergulho
nesse poço de negras águas.
Me molho, me olho e constato: sou sua.

"Quando a luz dos olhos teus e a luz dos meus resolvem se encontrar... Ai, que bom que isso é, meu Deus, que frio que me dá o encontro desse olhar." (Vinicius e Tom)

Railma Medeiros

Alergia.

Esperando a poeira baixar
Descobri: tenho alergia.
E explodi.
A-tchim, a-tchim! 
Tava chorando? 
Não, rinite

Espirrando,
Railma Medeiros



Incondicional.



Durante a criação, me pergunto se Deus poderia ter sido mais generoso. Questiono-me se não poderia Ele ter tirado dois minutinhos e dito que "haja desapego, quando necessário". Corrijo-me no mesmo instante. Se esses dois minutinhos - cuja não existência tortura-me nesse auge de desespero - tivessem acontecido, a escuridão não seria tão escura e a luz não seria tão reconfortante. O fato é que o ser humano nasce programado para sofrer. Não, eu não quero dizer que a vida é somente sofrimento, nem que a felicidade é menos predominante que a tristeza. O que eu quero dizer é que, apesar de passarmos nossa existência sabendo que um dia a morte chegará e levará as pessoas que mais amamos embora, que inclusive nos levará daqui, não conseguimos nos preparar. Não sabemos lidar com a falta, não somos bons em administrar saudades, não há cimento ou areia ou pedra ou tijolo capazes de tapar alguns buracos. Passamos a vida dando adeuses (temporários ou irreversíveis) e continuamos a sofrer com os efeitos colaterais que surgem, segundo as mais atuais pesquisas científicas, em todas as saídas de aeroportos e rodoviárias, nos portões de casa, nas paradas de ônibus lotadas, nas estações de trem, nos hospitais, nas colações de grau do ensino médio. Dormimos mal, dói a garganta sufocada de nós, dói o corpo que não come bem e nem descansa, doem os pensamentos ruins (que são inevitáveis) e dói o coração - ai, como dói - de angústia e saudade. Parece ser tão simples, quando dito ou escrito: "é só mentalizar que isso tudo vai passar". E vai, eu sei, você sabe, se não passasse a existência seria insustentável, todos nós já caímos e sabemos que a região da pele com o hematoma roxo vai tornar à coloração normal, o sangue vai circular. Não é tão simples, é necessário reconfigurar. Pedi licença poética no início, pois sequer acredito em criacionismo, por isso agora vou dizer sem rodeios: a vida nos tira um pouco para que possa nos dar mais, para que possamos aprender, para que não sejamos arrogantes e saibamos olhar para trás. Acredito que não somos previamente preparados para despedidas para que, em um determinado momento, sejamos capazes de enxergar uma das mais árduas lições: amor não é cárcere privado, é liberdade (in)condicional.  

Em alguns momentos, só Vinicius parece entender...
E por falar em saudade, como anda você?
Aprendendo a lidar,
Railma Medeiros