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Incondicional.



Durante a criação, me pergunto se Deus poderia ter sido mais generoso. Questiono-me se não poderia Ele ter tirado dois minutinhos e dito que "haja desapego, quando necessário". Corrijo-me no mesmo instante. Se esses dois minutinhos - cuja não existência tortura-me nesse auge de desespero - tivessem acontecido, a escuridão não seria tão escura e a luz não seria tão reconfortante. O fato é que o ser humano nasce programado para sofrer. Não, eu não quero dizer que a vida é somente sofrimento, nem que a felicidade é menos predominante que a tristeza. O que eu quero dizer é que, apesar de passarmos nossa existência sabendo que um dia a morte chegará e levará as pessoas que mais amamos embora, que inclusive nos levará daqui, não conseguimos nos preparar. Não sabemos lidar com a falta, não somos bons em administrar saudades, não há cimento ou areia ou pedra ou tijolo capazes de tapar alguns buracos. Passamos a vida dando adeuses (temporários ou irreversíveis) e continuamos a sofrer com os efeitos colaterais que surgem, segundo as mais atuais pesquisas científicas, em todas as saídas de aeroportos e rodoviárias, nos portões de casa, nas paradas de ônibus lotadas, nas estações de trem, nos hospitais, nas colações de grau do ensino médio. Dormimos mal, dói a garganta sufocada de nós, dói o corpo que não come bem e nem descansa, doem os pensamentos ruins (que são inevitáveis) e dói o coração - ai, como dói - de angústia e saudade. Parece ser tão simples, quando dito ou escrito: "é só mentalizar que isso tudo vai passar". E vai, eu sei, você sabe, se não passasse a existência seria insustentável, todos nós já caímos e sabemos que a região da pele com o hematoma roxo vai tornar à coloração normal, o sangue vai circular. Não é tão simples, é necessário reconfigurar. Pedi licença poética no início, pois sequer acredito em criacionismo, por isso agora vou dizer sem rodeios: a vida nos tira um pouco para que possa nos dar mais, para que possamos aprender, para que não sejamos arrogantes e saibamos olhar para trás. Acredito que não somos previamente preparados para despedidas para que, em um determinado momento, sejamos capazes de enxergar uma das mais árduas lições: amor não é cárcere privado, é liberdade (in)condicional.  

Em alguns momentos, só Vinicius parece entender...
E por falar em saudade, como anda você?
Aprendendo a lidar,
Railma Medeiros

2 colecionadores!:

  1. <3 <3
    Adorei!
    Seu blog é lindo, e achei o nome do blog muito legal!
    http://paulistada.blogspot.com.br/
    Bjks

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