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Amnésia.



A primeira vez em que a vi sem os óculos de grau, me encantei. Naquele universo escuro que eram os teus olhos, mergulhei. Vi de perto cada sarda, cada poro, cada pelo. Naquela tarde em que você me disse que queria tirar a roupa, me joguei. Não pude disfarçar a alegria que me invadiu ao ser convidado para um tour pelo seu corpo nu. Há tempos respeitava o espaço do seu templo - sagrado o tempo - e fazia o que podia: sonhava. Sem perceber, despertei: estava sem truques no jogo que, outrora, eu dominava. Não havia rota ou planos de fuga, não havia estratégia, meu indomável bicho solto estava com amnésia. Parei. Estremeci. Pensei melhor. Temi. Me entreguei. Agora, cá estou, me guiando pelo mapa de sinais das tuas brancas costas: me perdi de amor

Railma Medeiros

Tem são?




Um peso na mente, o porquê de ser gente. Um corpo dormente, que não consente aos comandos insistentes de um coração latente. 

Belo ou deformado? Certo ou errado? Futuro, presente ou passado? Eu estou no entre. 

E me pergunto quando há de ocorrer a transição que tanto anseio, quando vou sair do meio e guiar os rumos do meu ser.


Mas não posso pilhar, não posso gritar, não posso - sobretudo - afastar.

Esses dias de desgaste são como andar ré... Mas, pro meu bem, a tristeza passa com uma noite de sono e uma carícia no pé (e uma boa tora de chocolate).


Railma Medeiros