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Da boca de um cupido: um velho amigo.




As pessoas vão envelhecendo e deixando, nos intervalos entre os anos, muitas coisas para trás. Perdem manias, antigos amigos, bandas favoritas. Mudam as roupas, os pensamentos, os lugares frequentados. Angelina é mais uma menina de 20 anos e o que vê ao olhar para trás é  que a adolescente que foi aos 13-14 só existe na essência do que ela é hoje. Amadurecimento é um banho de esfoliante, que vai removendo as células mortas da pele - ou aquilo que é necessário deixar ir - mas preservando as marcas mais fortes, que nunca vão nos deixar.
 

Estou sempre ao lado dela, nem sempre podendo intervir. Semana passada pegamos um ônibus e encontramos um velho amigo, mais um que o tempo deixou lá atrás por algum motivo muito banal. 

Ela sorriu por um empurrãozinho meu, sorriu sem ter consciência do que um sorriso daqueles representava, um sorriso que poderia muito bem ser um abraço dos que tiram os pés do chão, tudo muito rápido e sem pensar. Conversaram rapidamente sobre os velhos tempos, com um pesar de saudade, como se tivessem ficado distantes pela correria da vida de gente grande, do trabalho, pelos afazeres da faculdade, pelo tempo dedicado aos romances... Naquele instante não parecia ter havido nunca uma ínfima discussão ou sequer um respingo de lágrima. 

Ambos fingiram não lembrar, mas eu lembrava. Meu coração se partiu por todas as coisas que ela não teve tempo de dizer. Angelina não falou pra ele o quanto sentiu sua falta e sobre ter transformado isso em raiva, não falou que até hoje lembra dele quando aquela música de CPM 22 toca no celular, não pediu desculpas por ter agido como idiota várias vezes.

Até então, ela pensava que aquele rapaz havia sido só mais uma célula morta que a vida tinha esfoliado de seu corpo. Se enganou. O velho amigo acordou do cômodo em que estava no seu coração - uma marca que o tempo não levou,  num misto de felicidade e dor - e desceu daquele ônibus conosco.

Entendi, pela primeira vez, porque não me é permitido protegê-la de tudo. Há alguns anos eu poderia ter evitado inúmeros motivos que levaram ao rompimento daquela amizade, mas se assim tivesse feito, teria lhe roubado a oportunidade de um grandioso aprendizado.

Os inexoráveis ponteiros do relógio nunca dançarão no sentido anti-horário, nunca nos deixarão voltar para corrigir os nossos erros, nem para matar a saudade dos gloriosos e despreocupados tempos de infância. Em compensação, o tempo tem o dom de curar dores, de acalmar almas sedentas de um veneno perigoso chamado "imediato", de proporcionar reencontros e fazer com que, em um dia comum e cheio de cansaço, dentro de um ônibus lotado, duas almas se abracem e digam sem a necessidade de palavras: perdão e obrigado.  



Railma Medeiros



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