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A voz incômoda de uma mulher.


Ao reencontrar meus amigos do ensino médio e externar que, caso não tivesse ingressado na faculdade de engenharia, teria cursado Direito, uma colega comentou:


- Poxa, daria certinho, Railma do jeito que é barraqueira! 

E eu fiquei pensando porque diabos fui, sou e (seguindo a lógica) sempre serei taxada como encrenqueira/barraqueira/explosiva/brava e etc, se nunca, repito: NUNCA em minha vida comecei uma confusão, briguei com alguém na rua, ofendi uma pessoa ao ser contrariada, levantei a minha voz e usei termos chulos em uma discussão. Já cheguei perto UMA ÚNICA VEZ no ensino médio, quando uma menina metida a valentona quis bater em uma colega de turma, eu me meti para defender e levei um empurrão. Quase briguei com uma maria bonita porque, num impulso de humanidade e calor do momento, decidi defender alguém. Nos separaram antes que algo pior acontecesse, ainda bem. O que eu ganhei com isso? Ser chamada de BARRAQUEIRA pela pessoa que tentei defender. Pelo menos tenho uma história interessante para contar e aprendi a lição de não me meter onde não sou chamada (apesar de saber que faria tudo novamente).

Ao longo dos anos percebi que algumas pessoas (homens, em geral) têm medo de mim, medo das respostas que eu vou dar, se espantam se sou delicada em algum momento. Depois de muitos anos de reflexão e de algumas sessões de tortura tentando ser/agir diferente, descobri que eu não sou o problema. O problema são as pessoas. As pessoas estão acostumadas com o esteriótipo de mulher menininha, delicada, vaidosa, inocente e frágil. A maioria gritante das minhas amigas são assim. Essas características não são predominantes na minha personalidade e isso assusta. Eu sei que isso é verdade porque já vi outras moças que não se encaixam nesse padrão ouvirem o mesmo tipo de barbaridade. Quando cito esses aspectos, não me refiro (somente) à aparência. O maior problema para os meus amigos (que têm medo) e para as minhas amigas (que me julgam barraqueira) é a absurda necessidade que eu tenho de me impor, de me posicionar, de não abaixar a minha cabeça, de dizer a minha opinião de forma objetiva, sem rodeios. Não entendo como isso pode ser tão apavorante. Acredito que é um sintoma causado pela infecção de um vírus chamado "senso comum", muito popular em uma sociedade patriarcal e machista, onde é muito normal que os homens falem o que pensam para outros homens sem que isso pareça ofensivo. Mulher fazer isso? COMO ASSIM? Eu hein! Essa aí é problema na certa!

Não, eu não tenho a intenção de ser grossa, eu não quero ofender ninguém, eu apenas sou assim. Isso não faz de mim menos mulher, isso não faz de vocês menos mulheres ou menos homens, queridos amigxs. Eu não fico chateada com vocês, tudo bem, minha família também não é menos família por pensar assim. Eu só peço que reflitam.
  
Se acham que eu tenho vocação para o Direito por saber me impor, me posicionar com argumentos válidos e por não ter medo de ser quem eu sou... Talvez o Direito esteja perdendo uma - pasmem - MULHER, que seria uma boa profissional, para a Engenharia Ambiental. 

Taí, me deram uma ideia! Talvez o meu ramo seja o Licenciamento!

Muita luz para que o preconceito de vocês cegue. Afinal, faca cega não corta, ou melhor, NÃO PODA ninguém.


Nunca serei calada,
Railma Medeiros

Para mim.


Ao deixá-lo no ponto de ônibus, após uma caminhada molhada pela chuva, por um caminho iluminado pelas nossas risadas, me veio a necessidade de escrever sobre o amor. O amor, esse sentimento difícil de ser explicado, assim como a felicidade, tem um conceito muito individual. Escritores infanto-juvenis podem adocicá-lo demasiadamente (admito, eles também me enganaram). Os céticos podem dizer que é algo cultural, inventado por nós, como uma espécie de Deus, para tornar os fardos da vida mais leves. Para alguns, o amor só existe atrelado à ideia de fidelidade e só se ama de verdade uma vez na vida. Para outros, não. 

Para mim, é quando parece bobo responder à pergunta "por quê você me ama?". Porque, para mim, parece bobo dizer que é por causa dos seus olhos, que é por me sentir protegida ao seu lado, que é porque eu quero ficar com você para sempre. Porque não é por nenhum desses motivos, apesar de você ter olhos lindos, me fazer sentir segura de todos os males do universo e despertar em mim a vontade de fazer durar. Eu não sei explicar, não é racional, é meio que como andar. Você não pensa: mover perna direita para frente, enquanto a perna esquerda é jogada para trás e os braços se mexem para lá e para cá. É como andar! Não há razões para questionar, esquematizar, explicar. E se assim você decidir fazer, é mais provável que se distraia com tantas perguntas desnecessárias e, de repente, caia. Se espatife no chão. Torça o pé, frature um osso, esmague o coração. 

Não sei dizer quando o amor começou, se foi quando esperou meu ônibus ir embora para, só depois de me jogar um beijo no ar, você partir. Não sei se foi quando senti saudade pela primeira vez. Não sei se foi quando fiquei morta de vergonha e você disse "tá tudo bem, relaxa". Não sei. Sei só que, depois de muitos dias felizes, de tantas noites, de centenas de músicas  e sonhos, muita coisa mudou. Para minha surpresa, não acabou.

Padre Fábio de Melo, um baita ser humano e um excelente escritor, fala (não exatamente com essas palavras) que só pode-se dizer que um amor é verdadeiro, quando ele supera as barreiras da utilidade. Isso mesmo, na dor. 

Eu posso não saber explicar as razões que levam alguém a amar, mas afirmo, sem medo de errar, que  você sabe que é amor quando você manda, para o bem do outro, a pessoa amada ir embora e ela decide, contra todos os preceitos lógicos, ficar. 

Só porque te ama, só porque quer enfrentar a tempestade de frente e ao seu lado, se possível chutar as poças de lama nas suas pernas, rir da sua cara e mostrar que dá pra dar risada da tragédia.


"Primeiro, vocês dois seguiram os seus próprios caminhos
E a vibração estava forte
E o que era pequeno se transformou em uma amizade
Uma amizade se transformou num laço
E esse laço nunca será desatado
O amor nunca será perdido
E quando a irmandade vem primeiro
Então a linha nunca será cruzada."


See You Again, de Wiz Khalifa, cover por Boyce Avenue. ♥




Isso é amor. É claro, para mim:
Railma Medeiros.

Passagem.




Viajou para uma prometida eternidade que, secamente, de uma hora pra outra, se desfez. Simplesmente acabou. Desejou uma morte súbita, mas quem sofre é refém do tempo, das filas, das esperas.

Guardou os óculos de grau, colocou as lentes de contato. Tentou enganar a si mesma, achou que se fingisse que enxergava, talvez aquele sentimento não a cegasse nunca mais. 

Seus olhos pareciam maiores, mas ela não enxergava melhor. Nem os dedos de quem a desafiava (quantos tem aqui?), nem o quadro, nem a realidade. Para ela, o poço é uma garrafa. Tem visto o  fundo de várias - e não mais através. São muitas cores, muitas marcas, muitos gostos. Todos ácidos.

Comprou a passagem de volta. Tentou enganar o tempo, achou que se fingisse ter poder sobre ele, talvez ele corresse mais rápido.

A felicidade passou correndo, passou a fé, passaram-se os meses. Ficou a dor. Venderam-lhe o bilhete errado: não passou o amor.



Railma Medeiros