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Passagem.




Viajou para uma prometida eternidade que, secamente, de uma hora pra outra, se desfez. Simplesmente acabou. Desejou uma morte súbita, mas quem sofre é refém do tempo, das filas, das esperas.

Guardou os óculos de grau, colocou as lentes de contato. Tentou enganar a si mesma, achou que se fingisse que enxergava, talvez aquele sentimento não a cegasse nunca mais. 

Seus olhos pareciam maiores, mas ela não enxergava melhor. Nem os dedos de quem a desafiava (quantos tem aqui?), nem o quadro, nem a realidade. Para ela, o poço é uma garrafa. Tem visto o  fundo de várias - e não mais através. São muitas cores, muitas marcas, muitos gostos. Todos ácidos.

Comprou a passagem de volta. Tentou enganar o tempo, achou que se fingisse ter poder sobre ele, talvez ele corresse mais rápido.

A felicidade passou correndo, passou a fé, passaram-se os meses. Ficou a dor. Venderam-lhe o bilhete errado: não passou o amor.



Railma Medeiros

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