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Coveiros.





A missa chegava ao fim e os coveiros, aguardando o momento de regar mais um corpo de areia, conversavam baixinho, quase que aos sussurros:

- Uma menina tão bonita, né? 
- Ahh, é... Ele, tão moço, já viúvo...

E as palavras eram ditas com tanta tristeza, tanta condescendência, que aquilo parecia ser, de fato, uma gigantesca tragédia para eles, ao invés de um acontecimento corriqueiro. Quando passei, quase pude ouvir-lhes dizer qualquer murmuro de solidariedade para com a decadente imagem em que me tornara. Eu ainda não havia aceitado que a morte me roubasse o que de mais precioso eu tinha e, de dor, remorso, desespero, angústia e todos os piores sentimentos que podem ser provados, tentei me jogar naquele buraco. Nós prometemos morrer juntos, não prometemos? 

ME DEIXEM IR! ME DEIXEM! ME DEIXEM IR!

Eu me pus aos berros, tentando me livrar dos braços que me continham à beira daquele abismo de dois metros a partir do chão, mas que parecia ser mais profundo que o poço que abrigava a minha alma. Puxei uma das cordas (usadas para lançar a mulher que amo na escuridão de microrganismos terrestres) das mãos de um coveiro e tentei envolvê-la em meu pescoço. De tão covarde, sem concluir o ato, eu desmaiei. Antes de apagar, entretanto, pude ouvir os gemidos dos coveiros:

- Ai, meu Deus! - Disseram ambos, em uníssono. 

...

São quatro da manhã e, como um despertador programado, o mesmo pesadelo me faz acordar suado e com uma quase arritmia. Às vezes gostaria que tudo fosse verdade. Nada é mais dolorido do que morrer para alguém ainda em vida.


"Coveiros gemem tristes ais
E realejos ancestrais juram que
Eu não devia mais querer você
Os sinos e os clarins rachados
Zombando tão desafinados
Querem,eu sei,mas é pecado
Eu te perder
É tanto,é tanto
Se ao menos você soubesse
Te quero tanto."




Railma Medeiros

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