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Sobre vômitos e fones de ouvido.





Quando era adolescente, eu passava o dia inteiro com fones nos ouvidos. Andei ouvindo pouca música nos últimos tempos, porque sempre acho que a casa vai ser arrombada, que o ônibus vai ser assaltado, que minha irmã dormindo ao lado pode passar mal e eu não conseguirei ouvir. Me tornei uma adulta ansiosa e bitolada. Mas, voltando ao assunto “música”, eu gostava muito de Legião, CPM 22, Pitty, Fresno, Charlie Brown Jr. e Strike. Já se passaram alguns anos desde aquela época em que a minha maior preocupação era com a internet de péssima qualidade e com meus amores infantis - afinal, sempre fui uma pessoa que ama muito, no sentido de sempre estar apaixonada pelas pessoas ou por um ideal.

Só que a vida às vezes exige demais da gente, né? Os problemas mudam, as relações se complexam, nos adaptamos a realidades que não são exatamente o que imaginávamos e gostaríamos de estar inseridos. O trabalho, a faculdade, a não proximidade dos que e do que amamos, a ausência da ousadia que era guia dos sonhos há alguns anos... De repente nos deparamos com tudo isso guardado em uma nostálgica seção da “biblioteca da memória”. A questão é que, como diria Lucas Silveira, essa biblioteca não é passível de fechamento e, quando menos esperamos, caem velhas estantes, com poeiras lotadas de alérgenos, que nos fazem espirrar sentimentos: o que porra estamos fazendo das nossas vidas? Será que seremos próximos novamente um dia? Escolhemos a profissão certa? A conta de luz já chegou? Qual a taxa mensal de juros? E se esse emprego novo não der certo? Eu me perdi de vez no caminho?

A rinite me ensinou que é comum lacrimejar um pouco depois de tantos espirros sucessivos, viver me ensinou que lágrimas avulsas podem virar amplos prantos. As responsabilidades me roubaram a leveza e agora eu sigo tentando recuperá-la, vomitando tudo o que, pelo excesso de gravidade, não me permite tirar os pés do chão nem por alguns segundos.

Senti vertigem, mas encarei que existem perturbações que eu não posso prever e nem controlar, a minha existência não tem como ser uma sinfonia regida apenas pelas minhas vontades.

Senti o estômago revirar e aceitei (com tristeza e em silêncio) que, por mais que doa velar um corpo vivo, algumas pessoas precisam ir.

Uma sensação horrível subiu pelo peito e invadiu a garganta, mas aprendi que alguns sonhos são somente sonhos, que desceram o rio junto com a correnteza e não irão mais voltar. O que planejamos antes não cabe mais no coração de quem nos tornamos e é preciso, tal qual um computador, reiniciar para atualizar.

É insuportável o sabor do líquido que chegou aqui no alto. Saio correndo com a mão na boca, não quero sujar o chão da minha casa e nem minha limpíssima roupa. Mas, antes de chegar ao banheiro, deixo escapar algumas gotas fedorentas pelos cantos. Tudo desceu com a descarga, talvez um dia se encontre com os sonhos que precisaram ir com o rio. 

Estou exausta, por sorte o amor se dissociou do que vomitei, o amor ficou. O amor ficou e segurou meus cabelos, me ergueu do chão, me deu forças para tomar um banho, me levou para a cama e, pela primeira vez em muito tempo, me proporcionou descanso. 

Vomitar é um mal necessário. Só permanece o que é necessário.

Coloquei uma playlist antiga, peguei meus fones de ouvido, ouvi tudo no volume máximo.


Railma Medeiros

Ansiedade.

dá medo, nó, aperto
o peito apela
bate na porta da garganta
o faço descer pela goela
é fácil enxergar a vermelha mancha
seja de longe, seja de perto
meu peito sangra: ansiedade.